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terça-feira, 16 de janeiro de 2024

A captura

A cápsula hibernária em que Kotharyn e Aryannin viajavam terminou pousando em um asteroide, no meio do nada. O espaço em seu interior não era muito grande para duas pessoas, mas Aryannin era pequena, perto do gigantesco Kotharyn, então quando finalizou o pouso, com um pequeno esforço, Kotharyn fez a porta saltar e ambos saíram para se esticar. O asteroide não tinha atmosfera, então era impossível uma comunicação verbal entre ambos. Aryannin, nas suas condições divinas, sobreviveria até mesmo no vácuo espacial e Kotharyn, graças a suas capacidades de adaptação, rapidamente se ambientou. A sorte de ambos eram os chips neurais que permitiram a comunicação:

- “Aonde estamos?” – Questionou Aryannin.

- “Não tenho certeza”. – Ponderou Kotharyn. – “Pelo parco conhecimento que tenho sobre essas cápsulas, elas precisam ser programadas. Quando adentramos nesta, não houve uma programação apropriada, então fomos catapultados sem conjectura de local. Podemos estar em qualquer lugar, mas por não conseguirmos falar, acredito que não tenhamos ambiente para isso”.

- “Kotharyn, olhe!” – Disse Aryannin apontando a um ponto que se aproximava. – “Alguém vive aqui”.

O ponto se configurou em uma jovem de cabelos escuros e longos. Sua pele não tinha um tom conhecido por eles, bem como suas feições pareciam diferentes, totalmente alienígena para eles. Ela sorriu e eles devolveram o sorriso:

- “Não consigo escutá-la como escuto a ti, por quê?” – Questionou Aryannin.

- “Acredito que ela não possua o dispositivo que possibilite se comunicar conosco”. – Afirmou Kotharyn. – “Deve estar alheia dos planetas-membros ao qual Volos VI faz parte”.

A jovem ficou olhando para eles e tentava pronunciar algumas palavras, mas nada saía de seus lábios. Fazia muito tempo que estava ali, sozinha. Pensou que nunca conheceria ninguém, mas aqueles dois seres, uma pessoa enorme de feições bem brutas e pele dourada e uma outra, pequena, menor que ela, de olhos enormes e pele azulada. Ela queria falar-lhes seu nome, mas não sabia como. Então lembrou que o solo do asteroide era arenoso e decidiu desenhar as letras, como aprendera quando era uma criança. Ela se agachou no solo e começou, letra por letra. Kotharyn e Aryannin observavam o que ela fazia:

- “Ela está desenhando algo no solo”. – Argumentou Aryannin.

- “Sim. Acredito que o dispositivo traduza o que ela escreve, também. Já fiz isso, vezes anteriores”. – E Kotharyn olhou as letras no solo e decifrou. – “‘Marcelle Menken’? Acredito que este deva ser o nome dela. Acredito já ter ouvido falarem deste sobrenome”. – E, ao pensar no sobrenome, Kotharyn termina acessando o Anima Mundi e as informações surgem:

“Menken. O sobrenome de Thiago e Marcela Menken, um casal de astrônomos do planeta Terra. Ambos eram membros do Instituto Aeroespacial Mundial da Terra e estudavam os corpos estelares. Um pedaço de uma estrela anã branca caiu no Deserto de Gobi e os dois estudavam o fragmento quando foram convidados pela Iniciativa Terra do Amanhã, no intuito de ajudar no mapeamento dos corpos celestes, de forma totalmente independente, assim poderiam continuar seu estudo do pedaço de estrela anã branca que possuíam. Com novos estudos baseados no Diagrama de Hertzsprung-Russell, nos estudos de Fleming, Cannon e Maury e na classificação espectral de Yerkes, os Menken classificaram as estrelas por padrões de grandezas, que ficou conhecido como Escala Menken. Além disso, auxiliaram no desenvolvimento de painéis que absorveriam a radiação de qualquer estrela e abasteceria as naves da Terra, sem necessidade de combustível sólido.

“Mesmo se prevenindo contra a radiação da estrela que estudavam, Marcela e Thiago Menken foram contaminados, aos poucos, pela radiação. Marcela terminou falecendo, após dar à luz a uma filha, enquanto Thiago Menken veio a falecer eras depois. A filha de ambos desapareceu, sem explicação. A Escala Menken de dimensionamento de estrelas é usada, até os dias de hoje, por toda a Confederação Galaxial. Além do abastecimento da energia das estrelas, mantendo, assim, um voo continuo, sem interrupções”.

- “Pelas informações que recebi do dispositivo, ela deve ser a filha perdida de um casal que dimensionou todas as estrelas”. – Pontuou Kotharyn.

- “Todas as estrelas?” – Questionou Aryannin. – “Eles devem ser pessoas fabulosas”.

- “Estão mortos. Se expuseram a radiação de um fragmento de estrela e morreram”. – Afirmou Kotharyn. – “Mas, acredito, devem tê-la mandado para cá antes. Talvez você soubesse mais, se tivesse suas memórias”.

- “Ainda demorará dois ciclos para isso ocorrer”. – Pontuou Aryannin. – “É frustrante desconhecer tudo. Tantas eras escondidas em dois ciclos. Quem sabe eu não me condicione a adiantá-los”. – E sorriu. Marcelle não entendeu e sorriu de volta, pensando que eles o faziam por causa de seu nome escrito no chão do asteroide.

Bem próximo dali, S.E. despertava seu tripulante hibernante:

- Acorda para cuspir, Moleza! – E Corr Sairy despertou lentamente de seu sono induzido:

- Onde estamos? – Questionou.

- Antes quer as más ou as péssimas notícias? – Disse S.E. em um tom jocoso.

- Do que está falando?

- A Confederação Galaxial quer você detido pela morte do Maghnussy. – Respondeu S.E. – Acho que eu mesmo vou entrega-lo e ficar de boa nessa.

- Eu não... Espera aí, você me entregar? Você me levou até Maghnessy. Então está tão encrencado quanto eu. – Disse Corr Sairy. – Quando você ouviu este comunicado?

- Foi enquanto estava em hibernação. Captei uma comunicação de Volos VI...

- Você estava espionando? – Disse Corr Sairy.

- Sim, e consegui informações importantíssimas. A Confederação Galaxial pediu que todos os planetas-membros colocassem seus representantes em seu encalço, além de terem colocado o Confederado-guerreiro Antares, também.

- Antares? – Questionou Corr Sairy. – O que matou Ikken Bergg? Caramba, tô ficando importante.

- Você está brincando com a sorte. Além disso, assim que fizermos a entrega da Megami e do krarrashin, o Migoto pretende te entregar de bandeja para o Confederado Antares.

- Não pensava que nosso acordo acabaria numa boa. Pretendo entrega-los, pegar o que precisamos e nos mandarmos. Agora, aonde está a cápsula?

- Localizei no asteroide grande, no quadrante nove, há uns 321 mil quilômetros de nós.

- Rastreie o asteroide para encontra-los. – Pediu Corr Sairy a S.E. – Não quero surpresas.

- Rastreamento realizado... Surpresa, surpresa. Temos três formas de vida no asteroide. – Falou S.E., surpreendendo Corr Sairy. – Fazendo projeção na tela.

O monitor a frente de Corr Sairy se acendeu, fazendo uma projeção holográfica das formas de vidas no asteroide. Manipulando manualmente, Corr Sairy pode ampliar para verificar os rostos das três pessoas no asteroide e o terceiro rosto o surpreendeu:

- Marcelle? – Ele disse, quase um cochicho saiu de seus lábios.

- Quem é Marcelle? – Questionou S.E. e, depois de pensar um pouco chegou à conclusão. – Peraí, Marcelle... Menken? A filha dos Menken? Aquela que você...

- Foi necessário. Se ela ficasse na Terra, teria virado cobaia. Thiago fez de mim padrinho dela. Eu precisava fazer algo.

- Mas não era somente você o padrinho, não é? Josiane, também. Ela era a madrinha.

- Sim. – As memórias pululavam na mente de Corr Sairy. – Foi uma época primorosa..., mas precisamos nos focar no que está ocorrendo. – Acessando o Anima Mundi, Corr Sairy buscou por informações a respeito de Antares:

“Antares, além de ser uma estrela de grandiosidade 5 na Escala Menken, também é o nome de um Confederado da Confederação Galaxial. De acordo com relatos, Antares foi encontrado no Primeiro Período Exploratório da Confederação Galaxial, quando buscavam ampliar o alcance daquela associação. Um grupo formado por Stahirr, de Thrittan, Mas Htims, de Vulcallo, Dav Annon, de Cycillian, Bavan Sheys, de Callyns e Goliath Hitarr, de Bhlokyonss, explorava a região 58, quando se depararam com sinais vitais sobre um enorme asteroide que circundava uma estrela de espectro vermelho, Antares. Ao pousarem sua nave, os cinco elementais – como ficaram conhecidos pelos carbonados – encontraram um enorme humanoide, deitado no solo. Sua pele era resistente e possuía um brilho avermelhado cintilante e que emitia calor. De acordo com os registros, o humanoide não possuía memórias de quem era ou do motivo de estar ali, somente pronunciava duas palavras: ‘Antares’ e ‘Mæsttra’. Sendo assim, registrou-se que o nome do humanoide era Antares e que o asteroide onde ele foi encontrado era os restos mortais de um possível planeta cujo nome seria Mæsttra. Antares foi integrado a Confederação Galaxial. Em seus primeiros momentos como Confederado de Mæsttra, Antares defendeu os planetas da Confederação de várias ameaças, mas somente durante a Grande Revolta mostrou o quão eficiente poderia ser. Sozinho, Antares atacou os principais líderes da Grande Revolta e, com uma descarga de energia, eliminou o gigante Ikken Bergg, de Callyns. Com isso, os outros renegados da Grande Revolta se renderam. A partir de então, Antares se tornou o Confederado-guerreiro, um apelido que ele ostenta com orgulho, mesmo que não demonstre”.

- É este cara que está atrás de nós? – Questionou S.E., com um tom de surpresa.

- Tem algo estranho nessa história. – Disse Corr Sairy e decidiu procurar informações sobre Mæsttra e localizou algo que havia esquecido:

“A Terra, durante o ano 3510 (K-Rarr 827.45), iniciou a exploração espacial para fora do seu sistema estelar. Com a iniciativa partida do cosmonauta Julius Asimov, eles pretendiam chegar à estrela de grandiosidade 5 na Escala Menken, Antares. Sendo assim, no dia terrano 05 de outubro de 3510, a nave Maestro V partiu da Estação Espacial Hermes I, na órbita de Saturno, com destino ao sistema estelar Antares. Usando propulsão de matéria escura, a viagem tinha objetivo de duração de 20 anos, sendo 10 anos de ida e mais 10 anos de retorno, sem possibilidades de comunicação, pois Antares está a 600 anos-luz da Terra. Passados 40 anos e como não obtiveram notícias de Julius Asimov ou da nave Maestro V, sua filha, a Dra. Elizabeth Asimov, então com 50 anos, decidiu começar a Iniciativa Terra do Amanhã. Contando com suporte e apoio das suas maiores corporações da Terra, a Corporações Dévero e a Piel-Green Empreendimentos, Elizabeth contratou os melhores e maiores especialistas para criar os melhores aparatos que possibilitassem reduzir o tempo de viagem, a comunicação à distância, um ser vivo com capacidade de suportar e a melhor nave para este tipo de viagem”.

- A Iniciativa Terra do Amanhã? – Questionou S.E. – Você não participou dela?

- Sim. – Disse Corr Sairy. Novamente suas memórias afloraram. - Não somente eu, como os pais de Marcelle, também. Só que eles participaram de forma independente, pois já era um projeto financiado pelo Instituto Aeroespacial Mundial, da Ordem da Composição Solar ou somente SCO[1]. Foi aonde eu conheci Josiane. Eu era um jovem engenheiro de hardware do Corpo de Fuzileiros da Terra, havia desenvolvido um nano chip que interligava o córtex cerebral a uma rede de dados, fornecendo informações somente com um pensamento, enquanto Josiane era uma desenvolvedora de banco de dados, apaixonada por filologia, que conseguiu ampliar a World Wide Web no que ela chamou de Anima Mundi que, em latim, significa Alma do Mundo. Além de nós quatro, três geneticistas também foram chamados. Malcolm Ross, Thereza Croisman e Romualdo Azevedo tinham desenvolvido o ser humano perfeito, com todas as capacidades ampliadas. Tínhamos também dois engenheiros-mecânicos que desenvolveram um metal extremamente resistente e leve que eles chamaram de Alominum, que era a junção de seus nomes, Dr. Alphonse O’Minney e Dra. Ip Num Chen. Cada grupo trabalhava com ligação a uma das grandes corporações, mas gerenciados por um único homem, Victor Cambasi...

- Peraí. – S.E. empeceu a história. – Victor Cambasi, Confederado da Terra, gerenciava vocês?

- Como se você não soubesse disso. – Disse Corr Sairy, em tom sarcástico.

- É, eu sei, mas fazendo este tom de surpresa dá um ar mais romântico a história. – Respondeu S.E. em tom brincalhão. – Pode continuar, eu adoro muito ouvir.

- Está bem. – E Corr Sairy continuou. – Ross, Croisman e Azevedo, enquanto sua proveta se desenvolvia em um enorme béquer, criaram um humanoide geneticamente semelhante a um terrano. Implantamos no seu córtex artificial o chip neural com capacidade de 10 terabytes – não queria munir com mais, pois temia uma sobrecarga de informações – já ligado ao Anima Mundi. O motor da nave era movido a energia estelar, sem matéria escura, e o cockpit era munido do protótipo que seria a câmara hibernaria. A nave Prometheus IV partiu da Estação Espacial Icarus, em uma viagem de seis anos. Todos os testes se confirmaram positivos, mas, mais do que isso, foi a experiência de primeiro contato da Terra com uma forma alienígena.

“A nave Prometheus IV foi resgatada pela Umkhumbi Wokuhlola[2] Bakk-Hush II, de Phællans. Liderados pelo (então) príncipe Li Kkan, a nave estava fazendo o Sexto Período Exploratório da Confederação Galaxial e, mesmo ainda considerando a Terra primitiva, pois era um planeta com uma divisão política desconexa (apesar de termos centralizado em 2950 (k-rarr 765.75) o governo do planeta no Secretário Geral da SCO), que possuía muitos conflitos internos, que desrespeitavam a si mesmos, fosse pela cor da pele, pela sexualidade de cada um, pelas diversificadas religiões ou pelos graus sociais de divisão, os phællansis ficaram impressionados com o desenvolvimento tecnológico. O Secretário Geral incumbiu Elizabeth Asimov como guia dos phællansis, que lhes mostrou tudo que havíamos desenvolvido. Ela então foi chamada como embaixadora da Terra e, durante a viagem para a Confederação Galaxial, iniciou um romance com Li Kkan. Se tornou nossa primeira Confederada, mas deixou o cargo logo depois, pois se casou com Li Kkan e se tornou princesa em Phællans. Os phællansis nos forneceram um soro da eternidade que retardava o envelhecimento, mas só usávamos nas viagens de longa distância, ou seja, eu, Victor Cambasi e outros pilotos recebemos do soro da eternidade. Então, mesmo passado tanto tempo na Terra, não parece que envelhecemos tanto”.

- Mas qual é o caso de Marcelle Menken? – Questionou S.E. – Ela também tomou do soro? Ou foi a Câmara hibernária que você a colocou?

- Não. Não é isso. Você conhece a história de Thiago e Marcela, mas poucos sabem o que realmente aconteceu por trás. – Aquela memória era algo que Corr Sairy desejava esquecer, mas estava arquivado em seu chip neural, pois era parte dele. – A exposição de Thiago e Marcela à estrela-anã tinham sido muito constantes, então os trajes de contenção não tinham eficiência total. Durante o período de gestação, o feto de Marcela terminou recebendo a radiação, também. Era para o bebê ter nascido com vários problemas de saúde, talvez até um câncer, mas não foi o que ocorreu. Nem mesmo Thiago soube explicar em seu diário os motivos de sua filha ter sobrevivido. Com receios dela ter ficado sensível a qualquer tipo de doença, criou Marcelle em uma caixa de vidro, das dimensões de um quarto de criança, com um teto solar, pois percebeu que sua filha se alimentava da energia do Sol. Ele também podia acompanhar seu processo de desenvolvimento. Mas, como Marcela, o corpo de Thiago foi afetado pela radiação e ele começou a adoecer. Junte a isso a perda da esposa, a preocupação com a filha e você tem um homem que adoeceu rapidamente. Eu e Josiane, por vezes, visitávamos eles. Éramos padrinhos de Marcelle. Vimos o corpo de Thiago degenerando. Chegamos até a levar um médico para vê-lo – fomos inocentes neste ponto, pois o médico era ligado a Iniciativa Terra do Amanhã, e denunciou o estado de saúde de Thiago para Cambasi. Quando Thiago veio a falecer, a Iniciativa nem esperou seu corpo esfriar e já foram à casa dos Menken, pegar todos os estudos e sequestrar Marcelle.

“Eu não podia permitir àquilo, então fui ao resgate dela. Mas, no ímpeto de não saber o que fazer, terminei colocando-a em uma cápsula hibernaria que havíamos recebido da Confederação Galaxial, para estudos. Programei para uma viagem de 500 anos-luz e a coloquei dentro. Seu nervosismo fez com que ela emanasse um brilho forte, mas que parou assim que ela hibernou (acho que o brilho desconfigurou a cápsula). Sinceramente, eu esperava que ela tivesse alcançado um planeta habitado e estivesse vivendo uma vida cheia de amor e afeição (os phællansis me fizeram imaginar isso, com aquele lance de equidade). Nunca poderia imaginar que ela estaria vivendo em um asteroide solitário”.

- Então ela pode sobreviver somente de energia estelar. – Confirmou S.E. – Está explicado porque não aparenta ter envelhecido muito.

- Precisamos planejar uma ação invasiva. Não quero ser surpreendido com a Megami e, muito menos, com Marcelle. Quando for o momento, pedirei que dispare na Megami e no krarrashin um campo de êxtase, e se for necessário, dispare uma rajada atordoante em Marcelle, o suficiente para trazê-la à nave. Ela não tem chip neural, então não temos como nos comunicar com ela.

- Tenho mais más notícias. Estou mapeando a área para não corrermos riscos, mas estamos em risco. Uma frota de naves vulcallos está próxima daqui.

- Risan Cloniech? – Corr Sairy questionou e, após uma pesquisa na nave líder, S.E. respondeu:

- Ela mesma. O que pretende fazer?

- Uma coisa de cada vez. Primeiro precisamos nos concentrar nisso, pois estamos lidando com pessoas que desconhecemos a extensão de suas capacidades, ao contrário de Risan Cloniech, que eu sei como agirá.

S.E. se aproximou de forma mais furtiva possível, mas era difícil não ser vista uma nave do seu porte. Logo que ele pousou, a atenção de Aryannin, Kotharyn e Marcelle se voltaram para aquela nave de corpo escuro com faixas brilhantes de dourado. Trajando uma roupa especial e seu capacete, Corr Sairy desceu na superfície do asteroide e a comunicação pelo chip neural se iniciou com Aryannin e Kotharyn:

- “Fala pessoal, eu não vim procurando encrenca. Somente preciso levar a Megami de volta e você como bagagem extra”. – Já iniciou Corr Sairy.

- “Então tu não se importas com a Megami”. – Argumentou Kotharyn. – “Aryannin sofrerá o Gisei no hi contra a própria vontade. E o que achas que ocorrerá comigo?”

- “Olha, entendam uma coisa. Não posso me importar com isso no momento. Então, por favor, venham sem resistência para resolvermos logo”. – Mas parece que não era o momento de racionalidade, pois Kotharyn demonstrou que não iria tão facilmente. Eles estavam fugindo do destino de Aryannin, além do krarrashin ter outros planos, também. Então, de forma surpreendente, Kotharyn atacou rapidamente Corr Sairy, mas antes de alcançar seu alvo, ele foi interceptado por um campo que o paralisou automaticamente. Sem esperar que Aryannin agisse, o mesmo raio a paralisou, também. Então, um brilho forte começou a emanar de Marcelle e, naquele momento, ela foi golpeada por uma rajada amarelada, que a fez tombar:

- “O que fizeste a ela?” – Questionou Aryannin pelo chip neural.

- “Nada demais, Megami. Somente a atordoamos”. – Disse Corr Sairy, indo na direção de Marcelle e levantando-a. Mesmo sendo uma pessoa pequena, Marcelle parecia pesar mais do que aparentava. Assim que a levantou, com certa dificuldade, Corr Sairy percebeu que o local aonde ela estava, ficou com a posição de seus pés, em baixo relevo.

Depois de todos embarcarem em S.E., ele levantou voo. Instantes depois, Marcelle despertou:

- Calma. Nos conhecemos. – Disse Corr Sairy para a jovem que parecia desorientada. – Sei que pareço mais velho, mas lembre-se do dia em que foi resgatada daquele laboratório. Fui eu que a coloquei naquela cápsula. – Não tinha como Marcelle esquecer daquele dia, pois era o único que sua memória guardara tão bem:

- Foi você! Eu fiquei presa naquele asteroide por sua causa! – As coisas não pareciam progredir como Corr Sairy desejava, mas ele continuou tentando:

- Algo deu muito errado. Não era para você estar ali. Pensei que você fosse parar em outro lugar. Um lugar melhor, mas eu desconhecia aquela cápsula na época. Eu sinto muito mesmo! – Marcelle começou a se acalmar à medida que ele falava. – Eu não queria o seu mal. Se a tivesse deixado naquele laboratório, não sei o que poderiam ter feito com você. Seu pai me fez seu padrinho. Assim que ele morreu...

- Sim, você era meu padrinho. – Marcelle o obstou. – Junto com... sua esposa. Eu não tinha ideia do que estava acontecendo quando me sedaram e fui parar naquela sala branca com um espelho enorme na minha frente. Lembro que meu pai me contou sobre minha mãe ter falecido durante meu parto. Ele me contou quando eu completei 15 anos de idade. Lembro de vocês nos visitando. De meu pai debilitado. Ele era, meu professor. Me ensinou a ler e a escrever. Lembro que vocês levaram um médico para visita-lo...

- Este foi outro erro meu. – Disse Corr Sairy. – O médico. Ele trabalhava para a Iniciativa que fazíamos parte. Ele disse da saúde de seu pai para as empresas que financiavam a Iniciativa e eles começaram a monitorá-lo. Assim que faleceu, enquanto eu e minha esposa, Josiane, o enterrávamos, eles invadiram o observatório que vocês viviam e a sequestrou. Fiquei sabendo disso e, decidi liberta-la.

- Aonde está sua esposa? – Marcelle perguntou.

- Ela faleceu. Josiane e nossa filha, Cynthia, sofreram um acidente e morreram. Isso foi há... há muito tempo. – Aquela lembrança ainda doía para Corr Sairy, mesmo com tanto tempo tendo passado, era uma emoção belicosa em sua memória. Marcelle parecia estar compadecendo com Corr Sairy, quando ela ouviu uma voz vinda do fundo da nave, em sua cabeça:

- “Por favor, nos liberte”. – Ela olhou e viu Aryannin e Kotharyn inertes. Ela ficou confusa com aquilo:

- O que aconteceu com eles? Por que eu consigo ouvi-los, ou mesmo, entende-los?

- Acalme-se. – Corr Sairy lhe pediu. – Eles estão contidos em um Campo de Êxtase. São fugitivos do planeta Volos VI. A menor é a Megami volosi, Aryannin, o maior é um krarrashin, Kotharyn. Eu tenho que leva-los de volta ao planeta. Quanto a ouvi-los, isso é graças ao chip neural que eu coloquei em seu córtex. Ele lhe dá acesso a todos os tipos de informações disponíveis no Anima Mundi, além de possibilitar contato e compreensão com várias pessoas. Um algoritmo contido nele, permite que você ouça e leia qualquer tipo de idioma, por mais diferente que seja, bem como outros, também, desde que tenham o chip.

- Aryannin? – Ao mesmo tempo que falou, Marcelle pensou no nome da Megami volosi e recebeu as informações sobre a Megami. – Nossa..., mas eles vão sacrifica-la, se ela voltar.

- Sim, eu sei. Mas são as leis dele. – Argumentou Corr Sairy.

- Ela determina as leis. – Pontuou Marcelle. – Não é porque ela se sacrificou antes de completar os dezesseis ciclos que eles têm de seguir esta forma de agir. Estão errados!

- Marcelle, nada é tão simples. Acredite, você tem muito o que aprender e, muitas vezes as informações não estarão no Anima Mundi. – Disse Corr Sairy.

- Tipo, o que aconteceu com você? Se eu quiser esta informação, terá no Anima Mundi? – Ela questionou, tentando localizar a informação, mas havia esquecido que não sabia nem o nome de seu captor. – Como você se chama? Não lembro o seu nome.

- Agora me chamo Corr Sairy. Não encontrará muito sobre mim no Anima Mundi. Talvez algumas denúncias e a intenção de me capturarem – E foi o que ela conseguira:

- Você é procurado por assassinato? – Marcelle se surpreendeu.

- Sei que vai ser difícil acreditar nisso, mas eu não matei ninguém. As acusações que estão dizendo são falsas.

- Ele está falando a verdade... espero que acredite! – Marcelle se assustou ao ouvir aquela jovem voz metalizada:

- Quem está falando?

- Acalme-se. É Águia de Aço. Ou melhor, é aonde estamos. Ele é uma forma de vida sintética, mas sapiente.

- Eu prefiro que me chamem de S.E., fica mais fácil! – Pontuou S.E. – Mas, não querendo interromper o papo do padrinho com a afilhada, temos um problema logo à frente.

Quando Corr Sairy olhou para o espaço, vários globos flamejantes flutuavam a frente de S.E.:

- Ela está se comunicando. – Revelou S.E.

- Projete. – E surgiu na frente de Corr Sairy e Marcelle a imagem de mulher trajando uma armadura. Seu elmo permitia somente ver seus olhos, que pareciam dois rubis reluzentes. – Olá Risan Cloniech. Que lhe apresentar...

- Não vim até aqui para cerimonias formais, Corr Sairy. – Risan Cloniech disse, interrompendo. – Vim para leva-lo preso para a Confederação Galaxial.

- Sério? – ironizou Corr Sairy. – Quais as alegações? – Marcelle olhou para ela, incrédula.

- Você é acusado do assassinato do Maghnussy de Maghnessy. Transporte ilegal de armas e assassinos. E serviços de mercenário. – Risan Cloniech o acusou, ignorando seu tom irônico. Mas Corr Sairy preferiu continuar com o tom:

- Nossa, que chato. Façamos o seguinte, eu tenho um serviço para concluir e, depois, me entrego na Confederação Galaxial, está bem? – Na imagem projetada, Risan Cloniech parecia se deliciar com aquele momento, como se desejasse aquilo:

- Você brinca com o perigo, Corr Sairy. Peço que não resista..., mas espero, imensamente, que o faça.

- Nossa, quanta agressão, Risan Cloniech. – Corr Sairy fingiu espanto. – Olha, eu queria muito ficar para... como você disse?... Ah sim, resistir, mas tenho pressa, pois creio que você não será a única. Sendo assim, - ele se comunicou com S.E. pelo chip neural para que disparasse um campo de contenção – S.E.! – E foi disparado um campo em volta de toda a tropa conduzida por Risan Cloniech:

- O que é isso? – Ela questionou de forma arisca.

- Isso, minha cara, se chama Campo de Contenção. Você não pode fazer nada, pois se disparar contra o campo, ele cresce. Se tentar fugir, ele cresce. Não tem para onde vocês irem. Então, neste momento, eu abrirei uma Fenda Hipertemporal para ir ao meu destino de forma mais rápida, sem deixar rastros e, antes de o campo se desativar, a Fenda será fechada e vocês não terão como saber para onde eu fui. Dessa forma, nos vemos, dentro em breve, em Thrittan. Até logo. – Sabendo o que Corr Sairy desejava, S.E. disparou o pequeno círculo que se abriu para que pudesse passar e, como dito por Corr Sairy, assim que terminaram de passar, a Fenda se fechou e eles já estavam próximos do Sistema Volos, a caminho de seu destino.


[1] SCO = Solar Composition Order (Ordem da Composição Solar, em inglês)

[2] Umkhumbi Wokuhlola = Nave Exploratória

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