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sábado, 15 de junho de 2024

O julgamento

O dia do julgamento de Corr Sairy chegou e a Confederação Galaxial nunca se via tão cheia de líderes de planetas-membros. Com a clara exceção do Secretário Geral da Terra, o Magnanimus[1] de Agufalgav, o imperator de Prismus e o atual Maghnussy de Maghnessy – havia, também, à exceção de Cycillian, Thrittan e Vulcallo, que não tinham um líder, mas um conselho de comuns – todos os demais líderes queriam ver o destino de Corr Sairy.

No interior do grande salão de conferência da Confederação Galaxial, pode-se ver a grande mesa dos confederados, em forma piramidal e semioval, tinha em seu cume o assento do Confederado-mor. A sua direita estava sentado seu suplente, além dos confederados dos planetas Vulcallo, Callyns, Cycillian, Thrarkus, Maghnessy, Darkyan e Terra, enquanto do lado esquerdo do Confederado-mor estavam os confederados de Mæsttra (que estava com seu lugar vago), Phællans, Crisyen, Agufalgav, Dharkyens, Prismus, Kelkzerr, Volos VI e, assumindo seu posto pela primeira vez, Pyrakhin de Krarrash.

Em frente a grande mesa da Confederação, foram posicionadas duas bancadas que eram ocupadas por Antares, como acusador, e Sharan, como defensora (ambos possuíam braceletes que ocupavam seus antebraços, cheio de botões) e, entre ambos, estava uma plataforma onde ficaria Corr Sairy, que foi trazido por dois Thrittanis que o ladeavam:

- Bem-vindo a todos que aqui se encontram. – Iniciou Stahirr o julgamento. – Conforme requerido pelos planetas Crisyen, Phællans, Dharkyens e Kelkzerr, este julgamento estará sendo projetado nos planetas que aceitaram a projeção. Estamos aqui reunidos para o julgamento de Corr Sairy, ex-terrano, adotado por Crisyen, que é acusado dos crimes de transporte ilegal de Materiais e pessoas, ferindo o artigo 13 da Lei da Confederação Galaxial, de mercenarismo, ferindo o artigo 54 da Lei da Confederação Galaxial e de assassinato de um governante, membro ou representante de um governo dos planetas-membros da Confederação Galaxial, ferindo o Artigo 4 da Lei da Confederação Galaxial. A acusação de sequestro de governante, membro ou representante de um governo dos planetas-membros da Confederação Galaxial, que fere o artigo 5 da Lei da Confederação Galaxial foi retirado, pois a suposta sequestrada, Megami Aryannin de Volos VI, disse que houve uma falsa acusação quanto a isso e, por este perjúrio, o planeta Volos VI será punido de acordo com o artigo 10 da Confederação Galaxial que diz “O governante, membro ou representante de um planeta-membro da Confederação Galaxial que faltar com a verdade ou perjurar contra outro governante, membro ou representante do seu planeta ou de outro planeta-membro, deverá ser punido de acordo com o estabelecido” e, mencionando o Inciso 3 deste artigo “Em caso de faltar a verdade contra um governante, membro ou representante de outro planeta-membro, será penalizado com punição de 3 k-rarrs sem possibilidades de negociação”. Desta forma, ao final deste julgamento, aproveitando a presença do Migoto Akonyionn, já deixo de pronto aviso que Volos VI perderá as negociações pelo período estipulado. Caso aconteçam negociações com os planetas-membros da Confederação, as punições poderão ser maiores, com o risco de até expulsão da Confederação Galaxial.

“Prosseguindo, Corr Sairy ainda é acusado de mercenarismo, transportes ilegais e assassinato. Desta forma, como acusador temos o Confederado de Mæsttra, Antares, que apresentará as provas quanto aos crimes do neo-crisyeno. Enquanto, como defensora de Corr Sairy temos a Chefdiplomat Sharan de Thrittan, que apresentará provas que poderão inocentar o neo-crisyeno. Iniciemos as apresentações com a acusação”.

- Obrigado, Confederado-mor Stahirr. A todos que testemunham este julgamento, que tomou proporções não vistas desde o julgamento dos renegados que desejavam a destruição da Confederação Galaxial, Stahokk, K’rynn Swiss, Ikken Bergg e Davith Hitarr, julgaremos o ex-terrano, neo-crisyeno Corr Sairy, que tem acusações sérias sobre ações que ele, como habitante de um dos planetas-membros da Confederação Galaxial, nunca deveria ter feito.

“Iniciamos as acusações. A Terra, o planeta-membro da Confederação Galaxial, lançou a acusação contra Corr Sairy referente a transportes de mercadorias e pessoas sem conhecimento do planeta, o que fere o Artigo 13 da Lei da Confederação que fala ‘A Confederação Galaxial estabelece que todos seus planetas-membros têm o direito de negociação de mercadorias e transporte entre estes, desde que’, e em seu Inciso 2 diz ‘A mercadoria seja autorizada como produto a ser negociado pela Confederação Galaxial’, no caso em questão os artefatos transportados por Corr Sairy não eram autorizado pela Confederação Galaxial para a Terra negociar e, conforme vemos nessas projeções – Antares apertou alguns botões de seu bracelete que projetaram páginas e vídeos com Corr Sairy nele –, a Corporação para a qual Corr Sairy prestava serviços, com o codinome de Corsário, a Força Terra-Espaço, desconhecia suas atividades. Ele perpetrava roubos de armamentos para negociar ilegalmente. Além disso, Corr Sairy e sua nave foram vistos deixando assassinos encomendados em planetas-membros da Confederação Galaxial, como se não bastasse, era cúmplice de assassinatos”.

- Confederado Antares, suas provas são bem interessantes, - disse Sharan – mas totalmente equivocadas. No parágrafo único do artigo 13 da Lei da Confederação Galaxial, diz claramente que “Caso um planeta-membro da Confederação Galaxial negocie artefatos que não lhe foram sancionados, cumprirá uma punição de 5 k-rarrs, sem direitos a negociar com qualquer outro planeta-membro da Confederação Galaxial”.

- Sim, Chefdiplomat Sharan de Thrittan, mas no caso em questão a Terra não tinha conhecimento das negociações que Corr Sairy fazia. – Pontuou Antares.

- Não poderia estar mais errado, Confederado Antares. As gravações que projetarei a seguir, passaram pela verificação de confiabilidade e comprovam que as provas contra Corr Sairy são, no mínimo, equivocadas. – E Sharan clicou em um botão no bracelete que usava e uma voz reconhecível pode ser ouvida e, com o reconhecimento de voz automático, a imagem do rosto do Confederado Victor Cambasi surgiu:

- “Corsário, estou lhe enviando a Ordem de Serviço 8364/57. Você deve comparecer ao hangar 23 para carregar um suprimento de canhões de fase, modelo 734, que você deverá levar para Thrarkus. O prazo de entrega é de 4 Rarrs. Recomendo o uso de uma Fenda Hipertemporal, é mais rápido e prático e garante uma entrega mais imediata”.

- “Mas os canhões de fase são usados para exploração, Negociador? Thrarkus está explorando o quê? E temos autorização para essa negociação?”

- “Não questione. Você sabe que o seu trabalho é somente transporte e nada mais. Pegue os canhões de fase e leve-os para Thrarkus. Depois aguarde a próxima Ordem de Serviço”.

Então Sharan apertou outro botão de seu bracelete ouvimos novamente a voz conhecida e a projeção do rosto de Cambasi:

- “Corsário, segue a Ordem de Serviço 3364/59, na qual você deverá transportar uma dúzia de caixas para o planeta Darkyan”.

- “Tá, e o que tem dentro das caixas é volátil, Negociador? Eu e minha nave estamos correndo riscos? Ainda mais praquela galera de Darkyan”.

- “Somente tome cuidado para não sacudir demais as mercadorias”.

- E assim vai. – Falou Sharan. – A Terra nega ter ciência disso, como disse Confederado Antares, mas é interessante que seu representante na Confederação Galaxial, o Confederado Victor Cambasi, era quem passava as tais Ordens de Serviço para Corr Sairy (usando seu codinome) prestasse, como podemos ver pelo reconhecimento de voz e, para completar, temos uma transmissão referente a outra Ordem de Serviço. – Sharan apertou outro botão, e uma nova gravação surgiu com outra projeção da voz de Cambasi:

- “Corsário, uma nova Ordem de Serviço para você. A 132/65 pede que você vá até um satélite no sistema Aktor”.

- “Satélite em Aktor? Mas não tem planeta naquele sistema, Negociador?”

- “Bem, a O.S. fala de satélite. Deve ser de algum planeta morto... O importante é que você deve apanhar uma pessoa que está por lá”.

- “Mas uma pessoa em um satélite de um planeta morto, Negociador? O que este cara tá fazendo lá?”

- “E isso importa? O nome dele é Gottakk. Ele é um monsuri, do planeta Monsur. Não conheço, mas você deve pegá-lo e leva-lo até Thrarkus”.

- Como muitos sabem, em k-rarr 993.77, o então vizir de Thrarkus, Malov Torrk, sofreu um atentado a sua vida que, somente sobreviveu, por causa de seu traje, que suportou um disparo de uma arma de fótons não identificada, mas reconheceram os resíduos energéticos.

“Então, Confederado Antares, como pode bem ver, aquilo que a Terra nega ter conhecimento, é uma falácia. Os carregamentos aos quais eles dizem que Corr Sairy roubou, haviam sido separados e deixados para ele pegar e levar a determinado local. A cumplicidade da qual você alega que Corr Sairy tem com o crime de tentativa de assassinato do vizir de Thrarkus, Malov Torrk, não era de conhecimento dele nem os motivos de levar o assassino para o local. Agora, requeiro a Confederação Galaxial o julgamento do planeta-membro Terra por ferir o parágrafo único do artigo 13 da Lei da Confederação Galaxial, pois suas ações são merecedoras de julgamento”.

Corr Sairy deu um leve sorriso com esta última argumentação de Sharan. Por esta nem ele esperava. Quando olhou na direção de Antares, ele parecia impassível, mas Cambasi não parecia se sentir bem em seu local. Naquele instante o Confederado-mor Stahirr se levantou, olhando para o Confederado Victor Cambasi:

- Confederado Victor Cambasi da Terra, havia recebido uma punição por agir contra o Inciso 3 do Artigo 64 da Lei da Confederação Galaxial. Você garantiu a este que lhe fala que as provas que apresentou eram verossímeis. Não é o momento para isso, mas ao fim deste julgamento, a Terra será severamente julgada por estes atos. – Stahirr voltou a se sentar e olhando novamente para frente, continuou. – Lamentamos que os líderes e membros dos planetas-membros aqui presentes precisem testemunhar o que parece ser uma inaptidão da Confederação Galaxial em prosseguir com um julgamento. Como muitos, a Confederação Galaxial também foi enganada e ultrajada. Adio a continuação do julgamento para outro momento. Levem, novamente, Corr Sairy à sua cela.

Corr Sairy queria falar com Sharan e agradecê-la, mas naquele momento estava satisfeito por ter testemunhado a reprimenda do Confederado-mor para Victor Cambasi.

Em sua cela, ele logo recebeu a visita de Sharan:

- Sinceramente, você foi excelente, Chefdiplomat. – Corr Sairy disso, com um sorriso no rosto.

- E olha que nem precisei usar a tentativa de assassinato que você sofreu.

- E o que teremos para depois, minha cara defensora?

- Bem, temos de desatar o lance de mercenarismo e, para isso, tenho algumas testemunhas essenciais... – Naquele instante chegava ao zellsektor o Confederado Antares:

- Chefdiplomat Sharan de Thrittan! – Antares a cumprimentou, enquanto ela e Corr Sairy precisavam levantar as cabeças para olhar nos olhos de Antares:

- Confederado Antares. – Cumprimentou Sharan. – Bem, Corr Sairy, até depois. – E Sharan saiu do local. Assim que ela adentrou no elevador, Antares se sentou em um dos assentos flutuantes diante da cela:

- Estou impressionado com aquilo. Você possuía aquelas provas todo este tempo e nunca usou contra seu antigo planeta. Por quê?

- Por que não usei? – Corr Sairy questionou e, com um sorriso no rosto, continuou. – Porque não via motivo para usá-las. E, sinceramente, aquilo é uma parte diminuta do que tenho.

- Sim, creio que seja. O Confederado-mor requererá à sua defensora tudo que ela tem das gravações, para dar sequência ao processo contra a Terra. Eu devo escusas por ter duvidado de sua inocência neste caso.

- Então está pronto para entregar os pontos e me deixar seguir livre?

- Entregar os pontos? Se está falando em interromper o julgamento e considera-lo inocente, está enganado. O julgamento prosseguirá, pois você ainda é acusado de mercenarismo e do assassinato do Maghnussy de Maghnessy.

- E por que desta acusação de mercenarismo?

- Porque você prestou serviços a outros planetas da Confederação Galaxial, cobrando valores. – Ao ouvir isso, Corr Sairy soltou um novo sorriso. – Por que sorri?

- Nada, Confederado Antares, nada demais. E já descobriu algo sobre seu passado?

- Meu passado não me importa. – Antares se levantou e saiu dali.

Neste instante, Victor Cambasi comparecia à sala do Confederado-mor, onde ele estava com seu suplente:

- Entre, Confederado Victor Cambasi, e se sente. Não fale! – Disse Stahirr, com um tom de voz que aparentava transtornado. Após Cambasi se sentar, silenciosamente, Stahirr se pôs de pé e começou a circular pela sala. – Você sabe a vergonha que fez a Confederação Galaxial passar hoje? Não precisa responder, pois a pergunte é retórica. Sabia das gravações que Corr Sairy possuía? – Um silêncio pairou pela sala. – A esta pergunta deves responder.

- As naves da Terra possuem caixas-pretas, que ficam armazenadas gravações e dados das espaçonaves, mas acreditávamos que ela tivesse sido destruída após o ataque... – Cambasi percebera que falara demais:

- Ataque! – Disse Stahirr, de forma pensativa, parado ao lado de Cambasi. – O Confederado nos disse que ele foi abordado por clientes que deveriam estar insatisfeitos. Agora, presumo eu, que estes deveriam ser clientes da Terra.

- O Confederado-mor está tirando conclusões precipitadas do assunto. – Pontuou Cambasi, quase gaguejando. – O Corsário que deveria ser julgado, não a Terra. Ele fazia os transportes e as entregas dos Materiais. Ele levou um assassino ao planeta Thrarkus. Como o Confederado Antares disse, ele foi cúmplice...

- Sobre suas ordens diretas, Confederado Victor Cambasi. – Disse Goliath Hitarr, enquanto Stahirr finalizava sua volta por trás de Cambasi. – Como ele o chamou? Ah sim, Negociador. O identificador de voz reconheceu seus padrões vocais e projetou sua imagem para todos terem certeza de quem falava. E agora este ataque que fala. De clientes de Corr Sairy? O que levou a este ataque a Corr Sairy, Confederado Victor Cambasi?

Stahirr voltou a se sentar em seu lugar e olhou diretamente para Cambasi, que suava frio:

- Responda ao questionamento do Confederado Goliath Hitarr, Confederado Victor Cambasi.

- Não sei o que responder, Confederado-mor Stahirr. – Balbuciou Cambasi. – A Terra não tem nada a ver com isso.

- Conheces o Artigo 15 da Lei da Confederação Galaxial, Confederado Victor Cambasi? – Questionou Stahirr. – Nele fala sobre conspiração, mais exatamente, que “Um planeta-membro da Confederação Galaxial não pode, em hipótese alguma, conspirar ou aliciar-se com outro planeta-membro da Confederação Galaxial, fora do que estabelecido no Artigo 3 deste caput, para atacar, ferir ou assassinar um governante, membro ou representante de um governo dos planetas-membros da Confederação Galaxial, ou mesmo contra a própria Confederação Galaxial”. Este artigo foi o que usamos para a punição dos renegados Stahokk, K’rynn Swiss, Ikken Bergg e Davith Hitarr, pois estes conspiraram contra a Confederação Galaxial. Se, por qualquer motivo que for, soubermos que a Terra se aliciou com outro planeta-membro para causar danos a um membro de um dos planetas-membros da Confederação Galaxial, as punições poderão ser mais severas do que somente 5 k-rarrs. Agora pode se retirar, Confederado Victor Cambasi. – Cambasi se levantou e postou-se de frente a mesa onde estavam o Stahirr e Goliath Hitarr:

- Posso falar livremente, Confederado-mor Stahirr?

- E o que teria a nos dizer, Confederado Victor Cambasi? – Inquiriu Stahirr.

- Me permite? – Cambasi questionou, secamente e, com um leve jogar de cabeça para frente, Stahirr permitiu. – Acha que podem punir a Terra por algo? O que seria da Confederação Galaxial sem a Terra? Vocês dependem dos nossos chips neurais para dialogarem entre si, ou pretendem voltar àquela ideia absurda de um idioma comum, no qual sofriam dificuldade atrozes? E o planeta que entrou depois da Terra na Confederação, como Kelkzerr? Vocês dependem de nós para coexistir. Dependem dos nossos chips e do nosso Anima Mundi para colher as informações. Por exemplo, sem o Anima Mundi, com certeza o Confederado-mor Stahirr não conseguiria pronunciar com tão eloquência o artigo citado. Então pensem bem antes de nos darem uma punição mais atroz. – E saiu da sala do Confederado-mor. Instante depois, Sharan era chamada à sala do Confederado Goliath Hitarr:

- Adentre, Chefdiplomat Sharan. – Goliath a convidou, de forma educada. – Por favor, se sente...

- Antes preciso saber por que fui chamada à sua sala, Confederado Goliath Hitarr? – Sharan questionou, preocupada:

- Acalme-se. Há pouco recebemos o Confederado Victor Cambasi na sala do Confederado-mor e ele nos disse sobre um ataque ao criminoso Corr Sairy...

- Acho um equívoco chama-lo assim, Confederado Goliath Hitarr.

- Bem, ainda permanecem acusações contra ele, então não há equívocos. – Sharan ia falar, quando Goliath continuou. – Independente disso, Chefdiplomat Sharan, o Confederado-mor incumbiu a mim pedir-lhe que, caso tenha a gravação de tal ataque, que a apresente no início da próxima sessão de julgamento de Corr Sairy, fazendo uso dos adendos de julgamento, requerendo a continuação da apresentação de provas que inocentem o acusado.

- Mas por que eu faria uso destes adendos, Confederado Goliath Hitarr?

- Porque o Confederado-mor da Confederação Galaxial e Confederado de Thrittan lhe pediu, fazendo uso de minha pessoa para isso. Ele disse que não queria que fosse falado diretamente para não parecer ter ligações pessoais. – Como fizera com Corr Sairy, Sharan analisou o timbre da voz de Goliath e percebeu que ele falava a verdade:

- Sendo assim, consultarei Corr Sairy e, se ele permitir, farei uso dos adendos de julgamento da Confederação Galaxial.

- Desde já agradeço por isso, Chefdiplomat Sharan. – Ao sair da sala do Confederado Goliath Hitarr, Sharan foi logo para o zellsektor e lá encontrou Corr Sairy deitado:

- Você não sabe o que acabaram de me pedir. – Ela disse com a voz aflita. Corr Sairy se levantou e olhou com atenção para ela. – O Confederado Goliath Hitarr acabou de me chamar a sua sala e me questionou se possuía as gravações de seu ataque e, caso as tenha, que transmita antes do início da próxima sessão, usando o adendo de defesa, ainda.

- Mas por que isso? – Questionou Corr Sairy, confuso. – Por que eles querem que você use esta gravação?

- Não tenho ideia dos motivos, Corr Sairy, mas acredito que tenha mais por trás disso. Fiz uma análise do timbre de voz do Confederado e além de perceber verdade no que falava, percebi um tom de raiva, rancor.

- Neste momento eu gostaria de ser uma mosca para saber o que eles falaram...

- O quê? – Sharan não entendeu o que Corr Sairy disse:

- Nada. Jeito de falar terrano. – Corr Sairy andou até o fundo da cela e começou a voltar. – Acredito que Cambasi deva ter sido chamado até a sala do Confederado-mor e lá foi confrontado por causa de sua inaptidão de me acusar de crimes que não cometi e, possivelmente (ele é arrogante o suficiente para isso), deve ter falado algo que o Confederado-mor e o Confederado Goliath Hitarr não gostaram muito (como eu gostaria de saber o que é!) e, por isso o Confederado Goliath Hitarr a pediu isso.

- E o que você acha? Devo mostrar a gravação? – O tom de voz de Sharan era ansioso.

- Não vejo porque não. – Disse Corr Sairy, de forma calma. – Se eles querem espetáculo, lhes dê. – Sharan sentiu um certo prazer no tom de voz de Corr Sairy. Ele estava se deliciando com isso:

- Esta será sua vingança, não é? Você está feliz com isso.

- Não posso mentir para você que isso não me satisfaça, pois todos os planetas-membros da Confederação Galaxial assistirão quão vil Victor Cambasi é. O que ele e os darkyanis fizeram a mim – disse apontando para o tapa-olho – simplesmente me quebrou por dentro. Você tem ideia do que é nunca mais confiar em outra pessoa, Chefdiplomat Sharan?

- Mas você tem confiado em mim, não? – Corr Sairy deu um sorriso rancoroso:

- Eu não confio em você, Chefdiplomat, eu dependo de você. É diferente. Eu conheço sua competência, eu sei que será capaz de me inocentar, mas confiar? Não sei mais o que é isso! Nem em Skill eu consigo confiar mais, e ele é como um irmão para mim.

“Quando eu entrei nesse serviço para a Força Terra-Espaço, eu esperava morrer. Eu esperava me juntar à minha esposa e minha filha, seja lá onde elas estiverem. Mas, com o passar dos tempos, fui me acostumando a fechar os olhos para tudo, ignorar. Eu não ligava para o que carregava, somente questionava, pois sabia que seria registrado e ficaria guardado, caso um dia eu precisasse, na Terra. Quando fui chamado para assassinar Maghnuss, eu percebi o quão longe havia ido e o quão vil eu me tornei. Eu não liguei de pegar Gottakk naquele satélite morto e leva-lo para assassinar o vizir de Thrarkus, mas quando colocaram a vida de outro ser vivo nas minhas mãos, eu me senti sujo, imoral, abjeto. A recusa foi meu livramento, mas não a minha salvação. Ser atacado da forma que eu fui, em uma emboscada, me mostrou que a confiança é algo deturpado”.

Sharan olhou para Corr Sairy e, durante seu relato, se sentiu desgostosa em defende-lo. Mas ela havia ouvido as gravações de antes e durante o ataque, e sabia que aquele rancor havia justificativa:

- Você sempre me faz questionar se eu deveria continuar a defende-lo, Corr Sairy. Você tentou me manipular, você infringiu leis mantendo contado com seu amigo no hangar e agora demonstra toda essa raiva e rancor. Eu deveria abandoná-lo agora e denunciar suas ações à Confederação Galaxial...

- Eu não infringi leis como você pontuou. – Corr Sairy a parou, surpreendendo Sharan.

- Lógico que infringiu. – Pontuou Sharan, exasperada.

- Não, não infringi.  – Disse Corr Sairy, com calma. – Como já lhe disse, não há leis que me proíbam de alterar as configurações de meu chip neural, que fiz me possibilitando, de forma precária devido ao campo energético de Thrittan, comunicação e acesso ao Anima Mundi e a S.E. Mas, por você ter me pedido que não me comunique com ninguém, eu a obedeci, pois, respeito seu pedido. – Sharan ficou sem palavras e, quando Corr Sairy disse, percebeu que ele manipulou as palavras a seu favor e isso fez toda sua vontade de repreende-lo desaparecer, soltando um sorriso:

- Você é um manipulador, sabia?

- Eu não me considero assim. Por falta de conhecimento de quem eu sou, nem a Confederação Galaxial e nem você poderia saber sobre meu chip neural. Não ligo de você denunciar para a Confederação Galaxial, mas o que eles fariam, buscariam descobrir a configuração do meu chip neural para bloqueá-lo? Seria o que chamamos na Terra de trabalho hercúleo e desnecessário, pois não conseguiriam. Eu criei isso e sei como usá-lo. O mais correto foi o que você fez, pediu para eu não usar e, como sou réu, obedeci. – Sharan olhava intrigada para Corr Sairy, mas somente disse:

- Dentro em breve voltaremos ao tribunal. Tenho nossas testemunhas. Descanse. Vou procurar o Confederado Antares para conversarmos sobre o adendo da próxima sessão. – Ao sair dali Sharan logo se dirigiu para a sala de Antares, onde ele estava organizando seu bracelete para a próxima sessão:

- Me desculpe interrompê-lo, Confederado Antares. – Ele olhou em direção a ela e sinalizou que entrasse:

- Não atrapalha, Chefdiplomat Sharan. Estava me organizando para a próxima sessão. O que a traz à minha sala?

- Fui chamada à sala do Confederado Goliath Hitarr, pois ele e o Confederado-mor desejam que eu inicie a próxima sessão com um adendo da defesa de Corr Sairy. Achei acertado avisar-lhe antes.

- Desconhecia tal fato, mas se foi um pedido do Confederado-mor Stahirr e seu suplente, o Confederado Goliath Hitarr, não vejo porque não possa fazê-lo. O que será apresentado como adendo, se posso questionar?

- Gravações que estão relacionadas aos crimes de transportes ilegais.

- Seria possível me enviar tal gravação antes da próxima sessão?

- Logicamente. – Sharan ainda portava os braceletes que usou no julgamento e, após apertar um botão, uma luz se acendeu no bracelete de Antares. – Aí está... Ah, e devo avisá-lo que Corr Sairy não está impossibilitado de comunicação com o Anima Mundi, pois ele mudou a configuração de seu chip neural. – Antares olhou de forma apreensiva para Sharan:

- Como assim? Ele infringiu mais leis?

- Não exatamente, Confederado Antares, pois não existem leis sobre quais configurações os chips neurais devem seguir, e como Corr Sairy é criador do mesmo, tendo patente em seu nome terrano, ele pode fazê-lo. – Antares não entendeu o que ela dissera e Sharan percebeu. – Eu pesquisei sobre o chip neural e a Terra tem arquivos de patentes, algo que assegura ao seu criador a criação e, mesmo que no Anima Mundi não tenha que desenvolveu o aparato, nos arquivos da Terra tem uma patente relacionada ao antigo nome de Corr Sairy. Isso, aparentemente, lhe garante o direito de modifica-lo, caso deseje. Dessa forma, não houve leis transgredidas. Até à sessão, Confederado Antares. – E Sharan saiu da sala de Antares, que estava curioso com aquilo tudo.

Se terminar de organizar seus arquivos, Antares colocou os braceletes e saiu em direção ao elevador que dava acesso ao zellsektor:

- Você foi o criador do chip neural? – Questionou Antares para Corr Sairy, ainda deitado:

- Olá, novamente, para você também, Confederado Antares. – Disse Corr Sairy se levantando e olhando pra o enorme Confederado cor de rubi. – Sim. Aparentemente a Chefdiplomat Sharan lhe contou algumas coisas.

- Ela me disse algumas coisas. Sabia que é inadmissível comunicações no zellsektor.

- Bem, vamos lá, eu não me comuniquei com ninguém da Confederação Galaxial que não sejam você, a Chefdiplomat Sharan, o Confederado-mor Stahirr, o Confederado Victor Cambasi (que veio aqui sem autorização) e os meus amigos, que foram autorizados pela Chefdiplomat Sharan a me visitar.

- E sua nave, Águia de Aço IV?

- S.E. não é membro, representante e, muito menos, governante de um planeta-membro da Confederação Galaxial. Ele é meu amigo e companheiro de viagem, sem ligação nenhuma com qualquer planeta da Confederação.

- Mas você está impossibilitado...

- Não. – Corr Sairy interrompeu Antares. – Eu não estou impossibilitado de nada. Meu chip neural tem configurações diferentes dos chips neurais fornecidos pela Terra à Confederação Galaxial. Eu criei estas configurações dos chips, então posso muda-los quando bem entender no mainframe. Fiz uma adaptação ao meu que me agradava, sem mudar seu número de série. Dei mais capacidade de armazenamento a ele e o tornei “invisível”, caso eu queira, a qualquer rastreamento. Você sabe por que não conseguia me localizar, Confederado Antares? Porque eu não queria que o fizesse. Se um dia eu desejar, eu simplesmente sumo para a Confederação Galaxial, mas como já disse a Chefdiplomat Sharan, eu achei mais correto um julgamento justo, ao invés de desaparecer.

- Pedirei uma intervenção imediata para bloquearmos seu chip neural.

- Se fizer isso poderá demorar muitos k-rarrs para consegui-lo, com a possibilidade de um contra um centilhão de chances de descobrir de primeira. Sem contar que, com uma possível tentativa de destruir todos os chips neurais, impossibilitando a comunicação e pesquisa da Confederação Galaxial. Se acha que estou blefando, chame um thrittanis aqui e veremos se estou. – Por dentro Antares fervia como uma estrela a ponto de uma tempestade e, mesmo que seu semblante não demonstrasse, isso refletiu no brilho que seu corpo emanava. – Recomendo a calma, Confederado Antares, não desejamos um atentado contra uma pessoa que está em julgamento. Para mantê-lo mais sereno, a minha defensora, a Chefdiplomat Sharan ordenou que não me comunique mais com S.E. e eu lhe prometi que não o farei mais até que o julgamento encerre. E quando faço uma promessa, eu cumpro, mesmo que isso me leve a ser incriminado por algo que não fiz. – E sorriu. Antares tentou diminuir a intensidade de sua raiva:

- Se eu tiver ciência que desobedeceu ao pedido de sua defensora, Corr Sairy, nada me impedirá de eu mesmo leva-lo para o Satélite prisão. – E, ainda intrigado, Antares questionou Corr Sairy. – Por que seu nome não está mencionado a criação do chip neural?

- Porque foi minha esposa quem criou o Anima Mundi e, conhecendo a criação dela, consegui apagar meus rastros. Deixei de existir para a Confederação Galaxial.

- Menos para um tal arquivo de patentes da Terra, onde seu antigo nome está relacionado a criação do chip neural.

- Então a Chefdiplomat Sharan descobriu meu arquivo de patente? Genial. – Corr Sairy disse com satisfação. – Eu não poderia apagar isso, senão daria à Terra e a Cambasi o que eles mais queriam, mas que é meu. Então, eles podem ter os melhores hackers para apagar isso (coisa da Terra!), mas nunca conseguirão.

- Você é um terrano deveras intrigante, Corr Sairy. – Argumentou Antares. – Obedeça ao pedido de sua defensora se não deseja ser punido severamente. – E quando estava saindo, Corr Sairy o chamou:

- Antes de ir, somente uma correção. Não sou um terrano, sou (como você mesmo disse) um neo-crisyeno.

Quando a nova sessão do julgamento iniciou, todos tomaram novamente seus postos para a sequência:

- Agradeço novamente a todos os governantes e membros dos planetas-membros da Confederação Galaxial pelo comparecimento ao julgamento do acusado Corr Sairy de Crisyen. – Iniciou o Confederado-mor Stahirr. – Em pedido formal a mim encaminhando pela Confederada Pyr Khatann de Crisyen, requerido pelo Crisyen Kongresuko Burua[2], Kott Annok, nos dirigiremos a Corr Sairy somente como membro do planeta Crisyen, já que este o adotou. Conseguinte, darei direito a palavra para a defensora do acusado Corr Sairy de Crisyen, a Chefdiplomat Sharan de Thrittan, que pediu um direito de adendo de defesa ao Confederado Goliath Hitarr.

Sharan olhou consternada para Goliath Hitarr, que parecia inabalável, e prosseguiu:

- Não foi exatamente um pedido de minha parte, Confederado-mor Stahirr, mas é um detalhe de pouco importância. Caros membros da Confederação Galaxial, Confederado Antares de Mæsttra, governantes dos planetas-membros da Confederação Galaxial e todos os presentes. Anteriormente apresentei como defesa de Corr Sairy de Crisyen provas que demonstravam seu total desconhecimento dos motivos do que transportava, até mesmo dos motivos de levar um assassino para Thrarkus. Mas o que não apresentei é que o próprio Corr Sairy, quando em uso de seu codinome Corsário, foi ordenado ao assassinato do atual Maghnussy. – Então, Sharan apertou um dos botões do bracelete que usava e uma projeção vocal surgiu, apresentando o rosto do Confederado Victor Cambasi:

- “Corsário, nova Ordem de Serviço para você, 5/99. De acordo com a O.S., você terá de se infiltrar em um grupo de rebeldes em Maghnessy e descobrir quem é o líder do grupo”.

- “Por que me selecionaram para isso, Negociador? Eu somente faço transportes. Desde quando virei espião?”

- “O que eu já te disse? Não questiona, somente faz o trabalho. Sem contar que, com sua aparência, você parece bem com eles. Raspa a cabeça e essa barba desgrenhada que ficará igualzinho um deles. Tem a altura e a cor de pele igual, então não reclame e faça seu serviço”.

Sharan apertou mais um botão e uma nova transmissão pode ser ouvida:

- “Corsário para Negociador. Consegui me infiltrar bem no grupo de rebeldes. Virei até amigão do líder que, surpreendentemente, se chama Maghnussy. O cara é filho do Maghnussy no poder. Tô chamando de Maghnuss para...”

- “Que bom isso. Verificarei o próximo passo e já entro em contato. Fique de prontidão”.

E Sharan clicou um novo botão:

- “Corsário, aqui fala o Negociador. Está aí?”

- “Pode falar, Negociador”.

- “Tenho ordens que vieram de cima. O seu trabalho é terminar com a vida do líder dos rebeldes”.

- “Como é que é? Tu sabes que não carrego arma. De onde veio isso? Você falou para a pessoa que eu não mato? Meu trabalho é outro...”

- “Corsário, ordem dada e ordem cumprida. Como eu disse, veio de cima, ou seja, algum grandão pediu para o nosso grandão pedir para você tirar a vida do líder dos rebeldes”.

- “Mas ele é filho do Maghnussy! Negociador, eu nem carrego arma, pois eu não as uso. Esquece, não vou fazer isso”.

- “Corsário, volto a dizer, ordem dada e ordem cumprida. Se não cumpre uma ordem, arca com as consequências”.

- “Que seja, tô fora!”

Olhando para Corr Sairy, Sharan prosseguiu apertando mais um botão:

- “Maghnuss, obrigado por ter vindo aqui. É o seguinte, eu não sou quem você pensa que eu sou”.

- “E você acha que eu não sabia disso? De que planeta você é?”

- “Não é isso. Entenda, pediram para que eu me infiltrasse no seu grupo e me aproximasse de você. Pensei que era somente espionagem, mas veio uma nova ordem...”

- “Que pediram que você me matasse!”

- “Exato... você sabia?”

- “Desconfiava. Todos falavam que a sua proximidade comigo era perigosa, mas eu vi que você não tem muito prazer em carregar armas, então esperei o momento que isso fosse acontecer e, pelo jeito, isso não ocorrerá, não é?”

- “Não é certo. A pessoa que quer isso deve querer algo em troca”.

- “Sim, ele quer. Ele quer perpetuar sua permanência tirânica no trono. Garanto a você que a ordem veio diretamente de meu roimh”.

- “Mas... vocês têm esse lance de que somente o roimh pode matar seu tar éis ou vice-versa, por que ele pede que eu mate você?”

- “Porque ele é um covarde e não quer sujar as mãos de sangue. Caso eu fosse morto por alguém de outro planeta, jogariam a culpa nessa pessoa e ele ficaria livre das acusações”.

- “Não posso e nem farei isso. Tô indo nessa. Não é certo isso”.

- “Mas saiba que você me deve. Como fealltóir[3], você me deve”.

- “Como assim?”

- “Você não está cumprindo o que lhe pediram, o que agradeço. Mas, de acordo com nossas leis, um fealltóir descoberto deve se aliar àquele contra quem tramou e cumprir com a justiça que lhe foi incumbida, ou seja, você deverá me ajudar a tomar o trono, para mim”.

- “Mas, eu não sou um maghnessy! Sou um terrano!”

- “Então, terrano, volte ao teu planeta, mas saiba que me deve e, se um dia eu tomar o trono de Maghnessy, irei atrás de ti para que cumpra seu dever”.

- Como podem ter ouvido e visto pelas projeções, – disse Sharan, antes de prosseguir com a apresentação – foi incumbido a Corr Sairy a aproximação e, posteriormente, o assassinato do atual Maghnussy de Maghnessy. – Então ela, perceptivelmente temerosa, apertou um novo botão:

- “Verificação de localização, S.E., onde estamos?”

- “Nos aproximando da Estrela K-Rarr. Distância de 3.5 anos-luz. Deseja retornar ao sistema hibernário?”

- “Perigo. Detecção de naves chegando em Saltos Hiperespaciais, vindas do Sistema Vertus, próximas ao planeta Darkyan”.

- “Erga escudos defensivos, S.E. Alerta vermelho”.

- “Erguendo escudos defensivos. Alerta vermelho. Chamada de áudio requerida”.

- “Transmita”.

- “Corsário da Terra. Sou o Redíl e este será o seu fim. Só queria ouvir os sons de seus gritos”. – Então pode-se ouvir os sons de disparos que atingiam a nave de Corr Sairy:

- “Escudos em 30%. Escudos em 15%. Falha total dos escudos”. – Os sons dos gritos de Corr Sairy podiam ser ouvidos por todos os presentes naquele local. Alguns demonstraram choque ao ouvir e, antes do fim, o Confederado Odared Efnoc de Darkyan e levantou, e Sharan interrompeu a transmissão:

- Qual o objetivo desta projeção, Chefdiplomat Sharan?

- O objetivo, Confederado Odared Efnoc de Darkyan? – Falou Sharan, um pouco exaltada. – Mostrar que os crimes perpetuados pela Terra e, também, por Darkyan, são atrozes. A Terra e Darkyan e uniram para atacar, massacrar e (quase) matar Corr Sairy, pois ele não cumprira uma ordem da Terra que era de matar o Maghnussy. – Um enorme burburinho pode ser ouvido entre os presentes. Corr Sairy, mesmo com o tempo que passara daqueles acontecimentos, não se sentia bem ao recordar.

Erguendo de seu lugar, o Confederado-mor Stahirr começou a falar:

- A Confederação Galaxial não compactua com atos como este. Independentemente do que o crisyeno fizera, os atos que ouvimos aqui são vis, degradantes, repulsivos, e vão contra tudo o que a Confederação Galaxial acredita. Não há palavras mais para poder expressar a repugnação que sinto com isso. Dessa forma, neste momento, venho a todos os Confederados, até mesmo ao Confederado Antares, que posta como acusador, que determinemos qual ação será a mais precisa, neste momento, pois tal ato repugnante não podemos seguir neste julgamento. – A palavra “desconfederar” soou entre cada Confederado, até mesmo Antares disse, de onde estava. – Sendo assim, neste exato momento, Victor Cambasi da Terra está desconfederado e deve ser restringido ao seu aposento, até que possamos prosseguir com seu julgamento. – Nisso, dois Thrittanis se aproximaram da bancada de Cambasi e o guiaram para fora do recinto. – Os relatos deste adendo deixaram muitos pesarosos com os atos cometidos, sendo assim, seguiremos em outro momento com o julgamento. Podem levar Corr Sairy de volta a sua cela.

Enquanto estava deitado em sua cama, se remoendo, Corr Sairy percebeu as luzes do corredor acenderem e pensou que fosse Sharan para conversarem sobre o prosseguimento do julgamento, mas de repente vários de seus conhecidos e amigos foram surgindo em frente à sua cela:

- Sério que Sharan permitiu a todos vocês virem aqui embaixo? – Ele questionou ao ver os rostos de todos.

- Sim, Corr Sairy de Crisyen, eu permiti! – Disse Sharan, chegando e se posicionando na frente dos outros e entrando na cela dele. – Todos ouviram o relato e foram à minha sala pedir para vir visita-lo. Como não temos muito tempo até o recomeço do julgamento, permiti a vinda de todos.

- Desculpe pela falta de compostura, Chefdiplomat Sharan. – Corr Sairy disse com ela ao seu lado e, Sharan olhando para todos lá fora, falou:

- Sabe, você me faz, às vezes, desejar desistir deste caso, - aquilo surpreendeu a todos, menos a Corr Sairy – mas vendo o tamanho de carinho que essas pessoas têm por você, é difícil não entender, também, sua revolta e a manutenção dessa cicatriz no rosto. Senti o abalo em você durante o relato dos acontecimentos. Era perceptível para todos o quanto aquilo o destrói. Então, nada mais acertado do que permitir um momento de afeição vinda daqueles que se importam contigo.

- Precisamos de você fora daí, Corr Sairy. – Disse Aryannin.

- Se você não tivesse nos salvado, não sei o que seria de nós. – Pontuou Kotharyn, que parecia desconfortável, pois era alto demais para o zellsektor:

- Tá doendo o pescoço, Grandão? – Questionou Corr Sairy, em tom zombeteiro, mas Kotharyn sorriu.

- Preciso de você em Agufalgav, Corr Sairy. – Falou H-Kik. – Meus filhos não podem nascer sem seu padrinho.

- Filhos? – Disse Corr Sairy, surpreso. – Caramba, vocês não brincam em serviço.

- O que eu posso fazer se os Asas Brancas têm costume de ter dois filhos? O que aconteceu é que economizamos tempo. – Skill se pronunciou, olhando para H-Glorr, com suas asas de penas escuras recolhidas, que sorria.

- Asas Brancas? – Corr Sairy questionou em tom irônico. – H-Glorr você tem que pintar essas penas então.

- Não me desonre na frente de todos, Corr Sairy. – Respondeu o grande agufalgaviano, em um tom zombeteiro. – Respeite a ancestralidade do grande H-Klorr.

- Obrigado por isso, Sharan (se assim posso chama-la). – Disse Corr Sairy, com sua defensora acenando em aceitação. – Obrigado mesmo a todos. Sei que muitos aqui nunca ouviram aquela história, pois eu não gosto muito de remoê-la e, como bem sabe Lyn Xus e alguns outros, meu passado não existe mais (a não ser por um registro de patente que minha defensora descobriu), pois a única lembrança que me importa está comigo para onde eu for. Mas, se foi feita alguma justiça com isso, para mim já está valendo a lembrança daquele dia. – Aos poucos todos foram saindo dali, até que ficou somente Sharan e Marcelle:

- Eu posso ficar mais um pouco, Chefdiplomat Sharan? – Questionou Marcelle à thrittani que saía da cela. Sharan sorriu para ela e respondeu:

- O tempo que desejar. – Se virou para Corr Sairy. – Nos veremos dentro em breve na continuação.

Quando Sharan saiu, Corr Sairy, de forma carinhosa, disse:

- O que foi, Estrelinha?

- Foi pior do que eu pensei.

- Sempre é pior do que imaginamos, Marcelle.

- Você já tinha ouvido a gravação?

- Várias e várias vezes eu o fiz. Lyn Xus dizia até que eu estava me torturando com aquilo. Durante algum tempo, enquanto viajava de um ponto a outro entre os planetas, eu colocava a gravação para ouvir.

- Mas por que essa tortura? Isso é insano!

- Não. Isso era para eu me lembrar que apesar do que passei, eu estava vivo. Os phællansis me deram uma nova vida. Eu não ouvia àquilo pensando em vingança, mas eu remoía para me lembrar que eu havia morrido para minha vida antiga e que essa era uma nova vida.

- E quando parou de ouvir?

- Quando eu percebi que existiam vidas que importavam mais do que esta lembrança.

- Foi durante a Guerra de Crisyen?

- Exatamente. – Marcelle deixou de lado os bancos flutuantes e se sentou no chão, novamente:

- Como foi lá? Você fala que não foi herói, mas de acordo com o Anima Mundi foi sua intervenção que deu a vitória para os crisyenos.

- As pessoas tendem a transformar grande algo diminuto.

- Mas como foi? – Marcelle insistiu e olhando para a jovem sentada no assoalho do corredor, Corr Sairy sentou-se no chão de sua cela e iniciou o relato, de seu ponto de vista:

- Crisyen encontrava-se em guerra fazia algum tempo. A Erregina Thyth Annis, após a morte de seu consorte, Obhe Ronn, desposou seu melhor e maior gerlaria, Brann Dawh, que era Komandante nagusia de sua errege guardia. Antes disso, ela e seu antigo esposo, haviam dado abrigo e lar a desertores do planeta Prismus. Thyth Annis e Obhe Ronn permitiram que eles usassem seu conhecimento de tecnologia e construíssem Hiri Mugikorrak a partir de suas naves e explorando os campos de minérios de ghenomus, um povo que vive no subterrâneo de Crisyen. E, como promessa à Erregina e ao Erregea[4] de Crisyen, os neo-crisyenos prometeram auxiliar na proteção do planeta e seu habitat, fauna, flora e povos. Foi graças a esta viagem dos neo-crisyenos para Crisyen que iniciou a Confederação Vertusi, com base no nome que os prismusis davam à estrela, Vertus.

“Quando Brann Dawh assumiu o erreinatu ao lado de Tyth Annis, a Confederação Galaxial já existia. Após 10 k-rarrs como Erregea, Brann Dawh usurpou o reino de Tyth Annis. A prendeu em uma crisálida de cristal, feita pelos phaeries, o povo que descendia Tyth Annis e Obhe Ronn. Essas crisálidas eram como cápsulas hibernarias, mas mais resistentes (de certa forma, o formato a base das cápsulas hibernarias que conhecemos) e com micro poros que permitiam a pessoa respirar, mas mantendo-a conservada.

“Os crisyenos das Hiri Mugikorrak não aceitaram o novo erreinatu instaurado e isso iniciou-se um conflito entre ambos, pois era exigido a restauração do erreinatu de Tyth Annis. Mas as Hiri Mugikorrak não estavam sozinhas. No começo, um grupo de rebeldes phaeries, ghemonus, ghennus (outro povo de Crisyen, que eram liderados por Rann Majh, um dos pretendentes de Tyth Annis) e helbós (também um povo de Crisyen, os mais altos entre todos), ajudaram contra o Usurbildarra, mas aos poucos foram dispersando, pois viam seus territórios sendo destruídos pelos aliados de Brann Dawh, que estabeleceu alianças com outros povos de Crisyen, que viviam nos lados escuros e frios do planeta e nas regiões desérticas, além de alguns phaeries que não gostavam do erreinatu de Tyth Annis. Rann Majh foi mandado para um exílio, enfraquecendo os ghennus e, mesmo com apoio de uma parte bem pequena desses rebeldes, as Hiri Mugikorrak enfrentavam problemas de Material e suprimentos para manter o conflito. Quando o Crisyen Kongresuko Burua conseguiu provas que Darkyan estava fornecendo armamento bélico para Brann Dawh, além da Confederação impor sanções a eles, permitiu que outros planetas-membros fornecessem auxílio à Crisyen”.

- Quantas sanções a Confederação Galaxial já deu para Darkyan? Parece que eles sempre estão no cerne das encrencas? – Questionou Marcelle, curiosa.

- Bem, eles não receberam uma agora, pois o Confederado-mor Stahirr somente mencionou a Terra. Mas a sanção não durou muito, pois o Usurbildarra provou a Confederação que Crisyen e Darkyan haviam estabelecido um acordo de comércio de suprimentos para enfrentar a crise que assolava o planeta. O que a Confederação Galaxial não sabia (ou sabia, mas fechou os olhos) é que os armamentos que Darkyan fornecia não eram fabricados por eles, mas vinham de outro lugar. Eles registraram os números de série como se fossem de fabricação deles, mas quando se desmontava as armas, descobria-se que eles não produziram aquilo.

“Com a permissão de planetas-membros auxiliarem Crisyen, Dharkyens assumiu o front de batalha com a Mitir Archistrátigos delas, K’rynn Swiss no comando, tendo sua irmã, a kapetánios da polemistés[5] dharkyensis, K’thryn Swiss, como seu braço direito. À Phællans foi permitido o fornecimento de alimentos, suprimentos e armamento bélico (já que Dharkyens fornecia para o rei). E foi nessa que eu entrei. Como S.E. não estava tão operativo quanto eu desejava, pilotei uma das naves de suprimentos para Crisyen. Cheguei lá quando a (atual) Chefdiplomat de Thrittan, Sharan, tentava negociar um acordo de paz entre as Hiri Mugikorrak, o grupo rebelde e Brann Dawh, mas este não aceitou os termos. No momento seguinte que Brann Dawh saiu da Cidade onde ocorrera a tentativa, um grupo de chefes-de-guerra foi se reunir em um tipo de Conselho de Guerra. Não sei o que me deu, mas eu decidi ir atrás deles, por pura curiosidade. Eles tinham a intenção de continuar com o ataque direto ao Palácio Real, que era altamente fortificado e, devido ao conhecimento dos moradores de lá, eles sabiam como rechaçar qualquer ataque. Nesse momento, da forma mais indisciplinar possível, adentrei e falei-lhes que isso somente perduraria mais a guerra. Naquele momento, K’thryn Swiss faltou disparar no meu outro olho e me deixar cego, de vez e, possivelmente, morto. Mas K’rynn Swiss tinha a calma de uma líder em campo de batalha e me deixou falar.

“Antes de irmos para lá, guardei em meu chip neural um mapa atualizado do planeta e outros mapas mais antigos. Com acesso a eles, mostrei que existiam antigos dutos que levavam das cavernas dos ghenomus até o Palácio. Estes dutos haviam sido construídos para facilitar o transporte do metal extraído, para não serem roubados pelos throkks ou lechpraughs ou ghrekins que, por sinal, eram aliados de Brann Dawh. Quem pedira a construção dos dutos foi Obhe Ronn, e somente ele, Tyth Annis e os ghenomus conheciam, além de quem se importasse a ler mapas, o que é algo raro.

“Mostrando isso, mostrei a forma mais rápida de terminar aquela guerra, sem perdas de vida. Imediatamente os ghenomus começaram a reabrir os túneis e, em menos de 6 k-rarrs a guerra havia acabado. Ainda há algumas frentes de resistência e grupos que buscam, novamente, usurpar o trono real, mas Tyth Annis reassumiu o trono e desposou Rann Majh, que a ajuda no reinar de Crisyen”.

- Então, você é mesmo o responsável pela vitória. – Pontuou Marcelle. – Se você não os tivesse mostrado o caminho a tomar, eles poderiam levar aquela guerra por eras e com muitas perdas de vidas.

- Eu não vejo assim. Eu acredito que, em algum momento, eles veriam aquilo.

- Sim, mas quando? Eu visitei a indlu yezincwadi de Phællans, mas passei longe da seção de cartografia. Você não! Corr Sairy, eu amo sua modéstia, mas você é um herói. – Corr Sairy fez cara de asco e Marcelle riu:

- Tá bem, o resto você já sabe.

- Eu fiz uma pergunta, mas esqueci de fazer outra, na vez passada. Você descobriu quem fornecia as armas para os Darkyan? E conseguiu a quantia que Crisyen precisava para se restabelecer?

- Para as duas perguntas, sim. Foi Domminon que forneceu os armamentos aos darkyanis que forneceram às tropas de Brann Dawh, o Usurbildarra. E com o serviço que prestei a Kelkzerr e o serviço que prestei para Volos VI, consegui o valor que eles precisavam, 195 créditos.

- E isso é muito?

- É uma quantia exorbitante, ainda mais para um planeta que não tem moeda corrente. Como as Hiri Mugikorrak não tinham com o que negociar, eles fizeram dívidas com Phællans, Dharkyens, Thrarkus, a Terra (sim, a Terra ajudou, também) e Darkyan (sim, eles cobraram os valores do armamento que forneceram ao Usurbildarra). O valor total do débito era de 195 créditos. Cobrei mais caro do Migoto Akonyionn, pois estamos falando de uma Megami e um príncipe. – Marcella sorriu:

- Obrigado por dividir essa história comigo, mesmo não sendo sua.

- Eu não ligo de dividir a história dos outros, desde que eu saiba o que aconteceu de verdade. Isso é coisa dos phællansis... Foi Pum Riss que lhe falou isso, não foi? Tem a cara dela usar esses termos. – Um novo sorriso surgiu no rosto de Marcelle. Então, ela se levantou e Corr Sairy a acompanhou:

- Até daqui a pouco, Corr Sairy.

- Até mais, Estrelinha.

A Confederação Galaxial reconvocou a todos para, novamente, comparecerem ao julgamento de Corr Sairy e todos estavam lá, em suas posições, com exceção do Confederado da Terra, também, do Confederado de Darkyan e não se notava a presença do Redíl de Darkyan:

- Como os que estão aqui presentes puderam perceber, temos a ausência de alguns confederados, além do Redíl de Darkyan que se retirou, retornando ao seu planeta para preparar sua defesa no caso de conspiração contra um membro de um planeta-membro da Confederação Galaxial. Já os confederados ausentes foram confinados em seus aposentos até quando o julgamento ocorrer. Sem necessidade de mais explicações, eu, Confederado-mor da Confederação Galaxial lhes digo que entrei em contato, pessoalmente, com o Secretário Geral da Terra, Al Kashin Hakbar, pedindo sua vinda à Thrittan. Ele estará juntando uma comitiva e deverá vir até o final do julgamento, quando promulgaremos a sentença de Corr Sairy.

“Iniciaremos com as acusações de mercenarismo que ferem o Artigo 54 da Lei da Confederação Galaxial, que diz ‘Fica proibido qualquer negócio que acarrete em pagamentos e serviços que caibam, especificamente, a membros ou representantes dos planetas-membros da Confederação Galaxial, caso não seja membros ou representante do planeta-membro que oferecera os serviços, serão considerados serviços mercenários’. Não obstante quanto a esta acusação, prosseguiremos. Confederado Antares, apresente suas provas”.

- Obrigado, Confederado-mor Stahirr. Membros da Confederação Galaxial, Ubukhosi e membros dos planetas-membros da Confederação Galaxial, em prosseguimento ao julgamento de Corr Sairy, antes Coronel Rodrigo Scandian, do Corpo de Fuzileiros da Terra – todos ficaram surpresos e Corr Sairy se virou para olhar Antares, que um sorriso maroto no rosto –, também conhecido pelo codinome Corsário, ex-terrano e neo-crisyeno, voltamos nossa atenção para pós-Guerra de Crisyen, quando Brann Dawh, o Usurbildarra, fora deposto, o agora chamado Corr Sairy partiu em viagem pelo espaço da Confederação Galaxial prestando serviços para planetas por valores bem altos, na casa dos dois dígitos de créditos, que foram transferidos, como podem ver nesta projeção – Antares acionou um dos botões de seu bracelete e surgiu uma projeção –, Corr Sairy fez duas transferências no valor de 95 créditos e 100 créditos para o planeta Crisyen...

- Que Corr Sairy prometera ajudar financeiramente, Confederado Antares. – Interrompeu Sharan. – Como todos aqui estão cientes, as Hiri Mugikorrak de Crisyen ficaram em déficit, pós-Guerra, principalmente com os planetas que lhe auxiliaram, fosse com suprimentos ou com mão-de-obra militar. Um débito de 195 créditos que precisariam ser pagos a Phællans, Dharkyens, Thrarkus e a Terra, que forneceram alimentos, força militarizadas e armamentos, suprimentos médicos e assistência hospitalar e tecnologia e líquidos revigorantes, respectivamente, além de precisarem pagar Darkyan pelos armamentos comprados pelo ex-Erregea Brann Dawh, o Usurbildarra.

“Chamo até minha bancada, como primeira testemunha, o ex Crisyen Kongresuko Burua, atual membro do Errege Kontseilarien Kidegoa[6] de Crisyen, Athorr Kannon”. – Athorr se aproximou da bancada de Sharan e ela lhe deu seu lugar e iniciou as perguntas:

- Pode nos dizer seu nome completo, planeta de origem e cargo que ocupa?

- Me chamo Athorr Kannon, sou do planeta Crisyen e ocupo o cargo de Crisyen-eko Errege Aholkularia[7], servindo a nossa Erregina Tyth Annis e nosso Erregea Rann Majh.

- Qual era o cargo que ocupava quando ocorreu a Guerra de Crisyen?

- Eu era Kongresuko buru das Hiri Mugikorrak de Crisyen.

- O que pode falar sobre a Guerra de Crisyen, para contar nos autos do processo?

- Foi avassaladora para toda Crisyen. As Hiri Mugikorrak ficaram debilitadas, pois Brann Dawh, o Usurbildarra, tirou todos os recursos que tínhamos. Por rarrs fomos atacados com canhões que pretendiam atingir o sistema de estabilização gravitacional das Hiri Mugikorrak. Algumas terminaram derrubadas, no começo, matando milhares de crisyenos que nelas habitavam.

“Conseguimos um acordo com a Terra, que nos forneceu um sistema de proteção, um tipo de escudo energético que eles haviam desenvolvido. O que salvou outras tantas Hiri Mugikorrak, como a capital. Os poucos sobreviventes foram espalhados pelas Hiri Mugikorrak que ainda existiam e, com a ajuda médica e hospitalar de Thrarkus, conseguimos que muitos ficassem vivos. Como estávamos sem suprimentos, a Terra e Phællans nos forneceram alimentos e líquidos revigorantes. Buscávamos uma resistência contra Brann Dawh, o Usurbildarra, e seus apoiadores, mas os povos de Crisyen, bem como os moradores das Hiri Mugikorrak, são pacíficos, sem experiência militar, então, após a autorização da Confederação Galaxial, podemos contar com a ajuda de Dharkyens para isso”.

- Mas essa ajuda teve um custo?

- Sim, como tudo na Confederação. Com o déficit de mercadorias que poderíamos negociar para pagar essas dívidas, valores foram estipulados pelos planetas que nos ajudaram. Mas, além disso, Darkyan determinou também um valor para o que havia fornecido a Brann Dawh, o Usurbildarra.

- Então, além de terem de pagar a Terra, Phællans, Dharkyens e Thrarkus, seria necessário pagarem Darkyan?

- Exato.

- Prossiga.

- Ao final, pensamos em começar a produção de matérias-primas que fornecíamos, como os estabilizadores gravitacionais e Kartium, metal das minas dos ghemonus, mas a projeção do suficiente para pagar o que devíamos era longa demais. Ciente disso, Corr Sairy se ofereceu...

- Espere. – Interrompeu Antares, se aproximando de Athorr Kannon. – Corr Sairy ofereceu fazer serviços para pagar suas dívidas?

- Sim, ele se ofereceu para arrecadar os fundos para acertarmos nossas dívidas. Ainda mais porque os Darkyan haviam estipulado um prazo para o pagamento. Enquanto os planetas que auxiliaram as Hiri Mugikorrak cobraram o valor de 30 créditos, cada, Darkyan exigiu o pagamento de 95 créditos. – Um burburinho tomou conta dos que estavam presentes e foi necessário Stahirr intervir:

- Peço a todos os presentes parcimônia nos comentários, pois o momento de julgarmos os crimes de Darkyan ainda estão por vim e o Confederado do planeta, bem como o Redíl não se encontram presentes. Por mais que acho um ato abusivo da parte de Darkyan, havia um acordo selado entre eles e o (então) Erregea Brann Dawh, que chamam de O Usurbildarra. Mas prossigamos com o julgamento em questão.

- Agradeço Confederado-mor Stahirr. – Disse Antares, se voltando para Athorr Kannon, novamente. – E qual fora o prazo estipulado por Darkyan?

- Eles desejavam no prazo de 4 k-rarrs.

- E o planeta Crisyen ou mesmo as Hiri Mugikorrak não teriam condições de, em 4 k-rarrs produzir o suficiente de Kartium ou mesmo dois estabilizadores gravitacionais para o pagamento desta dívida?

- Não sabíamos se Darkyan aceitaria o pagamento desta forma.

- Não sabiam? Questionaram ao Redíl que governava Darkyan na época, se ele aceitaria?

- Não.

- Então simplesmente aceitaram os serviços a preço fixo de Corr Sairy, por causa disso?

- Sim, mas...

- Sinceramente, - Antares interrompeu Athorr Kannon – por mais que tente justificar este serviço, Crisyen-eko Errege Aholkularia Athorr Kannon, Corr Sairy, ainda não crisyeno, estipulou um preço para aqueles que ele prestou serviço.

- Será isso mesmo, Confederado Antares? – Sharan começou a falar. – O Artigo da lei é bem claro, dizendo “que caibam, especificamente, a membros ou representantes dos planetas-membros da Confederação Galaxial, caso não seja membros ou representante do planeta-membro que oferecera os serviços, serão considerados serviços mercenários” e, neste caso, Corr Sairy era membro ou representante de um planeta-membro da Confederação Galaxial, mais especificamente de Crisyen. A Terra o tinha dado como morto, como vemos nessa projeção. – E, após Sharan apertar um botão de seu bracelete, surge para todos o Atestado de Óbito do Coronel Rodrigo Scandian. – E Corr Sairy já recebera seu nome crisyeno quando ofereceu os serviços que prestaria, pois fora o agradecimento da Erregina Tyth Annis lhe proporcionara, já que ele havia auxiliado na vitória contra Brann Dawh, O Usurbildarra.

- Mas a Titulazio ekitaldia[8] como novo crisyeno não ocorrera naquele momento. – Pontuou Antares, rechaçando os argumentos de Sharan.

- Não seja por isso. Obrigado pelo préstimo de vosso testemunho Crisyen-eko Errege Aholkularia Athorr Kannon. – Disse Sharan ao crisyeno que saiu da bancada. – Chamo para minha bancada a Erregina de Crisyen, Tyth Annis, aqui presente.

 Neste momento, por ser uma Erregina, todos se levantaram e curvaram suas cabeças perante a presença de Tyth Annis, que vinha acompanhada de seu rei, Rann Majh. Ambos se sentaram atrás da bancada de Sharan:

- Vossa realeza, agradeço por ter comparecido a este julgamento. – Sharan disse, curvando a cabeça. – Peço que digas seu nome, planeta e ocupação, por obséquio.

- Sou Erregina Tyth Annis de Crisyen, Erregina Suprema dos dez povos de Crisyen, Erregina Suprema das Hiri Mugikorrak de Crisyen. E este que me ladeia é meu marido e consorte, Erregea Rann Majh.

- Agradeço por demais, vossa presença, Erregina. Acredito que o Confederado Antares de Mæsttra deseje ter o direito a pergunta. – E Sharan deu lugar para Antares:

- Obrigado, Chefdiplomat Sharan. – E se voltou para Tyth Annis. – Vossa realeza, pode nos falar para que serve a Titulazio ekitaldia de Crisyen.

- Logicamente, Confederado Antares de Mæsttra. A Titulazio ekitaldia foi por mim criada e pelo meu falecido esposo, Obhe Ronn, como uma formalidade para dar aos prismusis exilados o direito de serem crisyenos. Como eram muitos, dei-lhes a permissão de nomeação por si mesmos. Mas sempre que um novo crisyeno das Hiri Mugikorrak nascem, mantendo a tradição, realizo a Titulazio ekitaldia para eles.

- Então podemos dizer que para Corr Sairy ser considerado um crisyeno seria necessário a Titulazio ekitaldia, vossa realeza?

- Não exatamente, Confederado Antares. Como bem disse, a cerimônia é um costume que eu e meu senarra falecido críamos. A partir do momento que nomeio um crisyeno, ele passa a ser crisyeno.

- Então, vossa realeza. – Sharan retomou a fala para ela. – Quando Corr Sairy ofereceu seus préstimos para fazer serviços, ele já era um crisyeno.

- Logicamente, Chefdiplomat Sharan de Thrittan. Eu já o havia nomeado e determinado seus afazeres como crisyeno.

- Obrigada por isso, Erregina Tyth Annis de Crisyen. – Tyth Annis e Rann Majh se levantaram, fazendo todos se levantarem junto e inclinarem as cabeças, e retornaram aos seus lugares. – Como veem, membros da Confederação Galaxial, somente a nomeação já tornava Corr Sairy como crisyeno, pois fora a própria Erregina Tyth Annis que fizera isso. - Corr Sairy ficou impressionado com sua defensora. “Eu sabia que ela era boa, mas está me surpreendendo”, ele pensou. – Mas prossigo com um testemunho que acho que me ajudará a solucionar outra questão. Chamo a minha bancada a Illuminus Hannia, para testemunho. – E toda a etiqueta voltou a se realizar, até Hannia se sentar na bancada. – Agradeço por comparecer a este julgamento, Illuminus Hannia...

- Não deixaria de comparecer mesmo que meu sistema estivesse em guerra. – Hannia disse, usando seu jeito despojado e tirando um sorriso dos rostos de Corr Sairy, Sharan e alguns que estavam na plateia.

- Illuminus, peço que nos diga seu nome, planeta e ocupação, por gentileza.

- Sou a Illuminus Hannia. illuminus de Kelkzerr, desharr do planeta homônimo, Sovrano[9] bidimensional do sistema KellDesh, poder este que divido com minha irmã, que não se encontra presente no momento.

- Illuminus, pode nos dizer como veio a conhecer o acusado Corr Sairy de Crisyen?

- Claro, Chefdiplomat Sharan de Thrittan.

“O sistema KellDesh passava por uma instabilidade de soberania, pois minha irmã Luannia, que havia sido sequestrada ainda nova por Desharr, da dimensão paralela à nossa, havia desaparecido. Em nosso sistema, ela era chamada de assassina, enquanto no sistema paralelo, ela era chamada de traidora. Aquilo a desestabilizou em demasia e ela preferiu desaparecer. Eu e minha irmã temos uma ligação que cria o equilíbrio entre os dois sistemas e, sem ela, passávamos por um caos. Precisávamos de um estrategista. Meu Capitano della guardia illuminus, Hommir, ouvira falar de um amigo dos phællansis que ajudara na Guerra de Crisyen, então entrei em contato com o Ubukhosi Li Kkan (também presente aqui!) e lhe perguntei sobre este estrategista e ele me falou de Corr Sairy, que havia se tornado crisyeno há pouco tempo (se não fosse isso, eu mesma o teria tornado um kelkzerrin, mesmo com esta cor linda dele). Também falei com a Mitir K’roll Swiss (aqui presente, também), pois suas pláttei estiveram ombro a ombro com Corr Sairy na Guerra de Crisyen, mas ela não pode me dizer muito, pois passava por outros problemas que não me cabem aqui dizer no momento.

“Arrs depois, Corr Sairy chegava a Kelkzerr, mandado pelo Ubukhosi Li Kkan. Foi então que percebi que Corr Sairy era mais que um estrategista, pois ele disse que poderia rastrear minha irmã por seu chip neural. Não fazia muito tempo que ingressáramos na Confederação Galaxial, então conhecíamos pouco sobre aqueles artefatos. Corr Sairy não somente rastreou minha irmã, como nos instruiu como fazer uso corretamente do chip neural. Ele foi de extrema ajuda para Kelkzerr. Se disponibilizou a resgatar minha sorella e a trouxe para próximo de nós, restabelecendo o equilíbrio de nossas dimensões. Devemos muito a este guerriero”.

- Em algum momento Corr Sairy estipulou algum preço pelos préstimos dele?

- Não! Todos os planetas da Confederação Galaxial, mesmo os mais novos como nós, sabíamos da Guerra de Crisyen e que eles tinham um débito para cumprir, principalmente deixado pelo Usurbildarra. Por muita insistência minha, Corr Sairy falou do valor que Crisyen devia para os planetas-membros. Me ofereci para pagar o valor todo, mas Corr Sairy, com muita relutância, disse para somente pagá-lo pelo valor que Crisyen precisaria para arcar com a dívida do Usurbildarra.

- Como assim, muita relutância?

- Como bem sabemos todos os planetas-membros da Confederação Galaxial, para um crédito ser transferido a um membro, governante ou representante de uma planeta-membro, ele precisa autorizar a recepção. Corr Sairy não queria autorizar a recepção de 195 créditos, mas aceitou somente os 95 créditos, que era o valor do débito do Usurbildarra.

- Sou imensamente grata por seu relato, Illuminus Hannia. Confederado Antares? – Disse Sharan, olhando na direção de seu oponente, mas Antares somente curvou a cabeça e quando Hannia se levantou para retornar ao seu lugar, toda a cerimônia foi feita:

- Relatos interessantes, Chefdiplomat Sharan. – Argumentou Antares. – Mas não fora bem isso que ocorrera na negociação com o Migoto Akonyionn, como podemos ouvir nessa projeção. – Antares pressionou um dos botões de seu bracelete e iniciou um áudio, projetando a imagem de Corr Sairy e Akonyionn:

- “Corr Sairy de Crisyen, eu sou o Migoto Akonyionn de Volos VI. Nossa Megami foi sequestrada por um dos seus servos, um krarrashin que lhe servia. Precisamos que a recupere e traga novamente para cá”.

- “Serão 100 créditos para o trabalho. 50 créditos para iniciarmos a busca e os outros 50 serão pagos na entrega”.

- “100 créditos é uma quantia bem alta, crisyeno. Mas transferirei os 50 créditos iniciais e, quando entregá-la, junto com o krarrashin, pagaremos o restante”.

- Algo que sabemos que Corr Sairy não fez levando a Megami Aryannin e se sequestrador para Phællans. – As últimas palavras de Antares fizeram a Megami Aryannin se exaltar em seu lugar:

- Isso é um ultraje! – Antes que aquilo piorasse, Stahirr se pronunciou:

- Confederado Antares de Mæsttra, como ousa tentar manipular deste jeito a Confederação Galaxial? – Antares parecia que ia falar, mas foi interrompido. – O que fizeste foi em demasia reprovável. Estamos aqui para um julgamento justo e imparcial. Esta parcialidade quanto há algo que não cabe a este julgamento, foi deveras desmedida. Já fora dito, no começo do julgamento, não estamos mais levando a júri o resgate da Megami Aryannin. Se continuar com essa atitude, será retirado do caso e outro acusador será escolhido.

- Peço escusas pela minha atitude, Confederado-mor Stahirr. Mas, como deixo claro, Corr Sairy cobrou pelo serviço, estipulando o valor que foi cobrado do Migoto Akonyionn e, foi totalmente pago, como mostra essa projeção...

- Antes que aperte este botão e promulgue mais gravações cortadas, Confederado Antares. – Disse Sharan, interrompendo Antares, que projetaria mais uma gravação. – Deixo claro que há um certo erro no que acabou de divulgar à Confederação Galaxial.

“Como todos bem sabem, todas as gravações de Águia de Aço IV passaram por um teste de confiabilidade para saber se não eram falsificadas ou cortadas, sendo assim, propago o áudio, sem cortes”. – E, apertando um botão de seu bracelete pode ouvir toda a conversa, com a projeção das imagens de Corr Sairy, Akonyionn e S.E.:

- “Corr Sairy de Crisyen, eu sou o Migoto Akonyionn de Volos VI. Precisamos de seus préstimos”.

- “Qual é o problema, Migoto?”

- “Nossa Megami foi sequestrada por um dos seus servos, um krarrashin que lhe servia. Precisamos que a recupere e traga novamente para cá”.

- “Pesada a história”.

- “Em que keshin está a sua Megami?”

- “Ah, estudou nossa história. Ela está em seu décimo-quarto keshin. Seu Gisei deverá ser em breve, pois ela já está próxima de alcançar os dezesseis ciclos”.

- “Você não vai concordar com isso, vai?”

- “Serão 100 créditos para o trabalho. 50 créditos para iniciarmos a busca e os outros 50 serão pagos na entrega. Precisamos deste serviço”.

- “Não acredito que Crisyen aceitaria algo assim. Na verdade, duvido que se envolveria nos problemas de outro planeta... por isso estamos aqui... tá, vamos nessa”.

- “100 créditos é uma quantia bem alta, crisyeno. Mas precisamos da Megami para o Gisei no hi. Transferirei os 50 créditos iniciais e, quando entregá-la, junto com o krarrashin, pagaremos o restante”.

- E este é o áudio (acredito que o seu esteja diferente) da entrega. – Pontuou Sharan, teclando mais um botão de seu bracelete, uma nova projeção com as imagens de Corr Sairy e Akonyionn:

- “Migoto Akonyionn, como prometido, volto com o que requereu”.

- “Preciso saber se cumpriu com o que combinamos. Preciso ver a Megami e o krarrashin”. – E uma projeção surge na sequência de Corr Sairy caminhando dentro da nave até o fundo, onde estavam paralisados como pedras Aryannin e Kotharyn:

- “Eu sempre cumpro o combinado e não gosto muito de mentiras. Antes de pousarmos, peço que faça a transferência dos 50 créditos restantes, pois não pretendo ficar muito tempo. Parece que a Confederação Galaxial deseja minha presença e eu preciso fazer mais duas coisas antes de me entregar. Quando estávamos a caminho, fui abordado pelos Koa de Vulcallo. Acredito que eles não sejam os únicos desejando me prender, antes de eu me entregar. Então faça a transferência, senão iremos embora”.

- “Transferência efetuada”.

- “Espere. Está tudo certo. Esteja à espera de sua Megami e o krarrashin no campo de recepção. Temos pressa!” – Ao final da projeção, Sharan voltou a se pronunciar:

- Se quiser tenho mais aqui. Principalmente do momento em que o Migoto Akonyionn tentou encurralar Corr Sairy e seus passageiros e, graças a um plano do crisyeno, eles conseguiram escapar e encontrar com o Confederado Antares. Águia de Aço IV foi muito solícito na entrega de áudios e vídeos que ele armazena.

- Isso porque Corr Sairy pediu que ele fosse, não? – Questionou Antares.

- Aonde deseja chegar com esse questionamento, Confederado Antares? – Perguntou Sharan, já sabendo a resposta:

- A Chefdiplomat veio à minha sala, antes do adendo de defesa de Corr Sairy e me disse que esse alterou as configurações de seu chip neural, permitindo que possa manter contato com sua espaçonave no hangar de Thrittan.

- E o que isso tem a ver com o julgamento do crisyeno Corr Sairy, Confederado Antares? – Corr Sairy pensou que Sharan estava se enrolando e ia pedir o direito de voz, mas esperou a resposta de Antares:

- Isso é, no mínimo, um atentado contra as predeterminações da Confederação Galaxial. O acusado não deve, em hipótese nenhuma, ter contato fora de sua cela. – Corr Sairy ia pedir o direito de voz, mas Sharan foi mais rápida:

- Confederado Antares, sinto um aborrecimento em seus atos, mesmo que não aparente. Quando todo e qualquer prisioneiro chega a Thrittan, a projeção lhe diz o seguinte. – E Sharan pressionou um botão de seu bracelete, onde apareceu uma projeção humanoide, que falou:

- “Você ficará confinado em uma cela com total isolamento e impossibilitado de comunicação com o Anima Mundi ou uso do seu chip neural, que ficará restrito ao tradutor omniversal”. – “Ela estava preparada”, Corr Sairy pensou. E Sharan continuou:

- As celas da Confederação Galaxial estão adaptadas para a configuração padrão dos chips neurais e impossibilitariam qualquer outro com um chip neural convencional. Mas, como mostra essa projeção. – Mais um botão é pressionado e o título da patente do chip neural aparece, com o nome do Coronel Rodrigo Scandian acentuado. – Corr Sairy, em seu antigo nome, é o criador do chip neural e, caso lhe convenha, ele pode alterar a configuração o quanto desejar. E, morto ou não para a Terra, Corr Sairy continua sendo o criador do chip neural. E sim, Corr Sairy me confessou ter mantido contato com Águia de Aço IV, mas desde que pedi que não se comunicasse com ele, pedi um monitoramento restrito e, em definitivo, não tem mais se comunicado com Águia de Aço IV, no hangar de Thrittan. Então, no momento em que consegui as provas com o amigo de Corr Sairy, eles não se comunicavam mais.

Corr Sairy não conseguia se conter dentro de si mesmo, orgulhoso de sua defensora. Percebeu que ela era mais esperta do que ele pensava, pois ele não pediu restrição ao chip, mas um monitoramento de comunicação. Mas percebeu uma leve modificação em algo, pois ela somente pediu que Corr Sairy não falasse com S.E. depois de conseguir as gravações e projeções. Ela mentira!

Naquele instante, um silêncio pairou na sala de conferências da Confederação Galaxial, que não durou muito, pois o Confederado-mor Stahirr se pronunciou:

- Há muitas provas contra e a favor do acusado quanto ao crime de mercenarismo. A Confederação Galaxial precisará analisa-la, antes de promulgar alguma condenação quanto a isso. Como tivemos um esclarecido debate de ambas as partes, interromperemos o julgamento e voltaremos em breve para a sequência. Levem o crisyeno Corr Sairy para sua cela. – E Corr Sairy foi tirado de seu púlpito e, enquanto passava por Sharan pronunciou, quase inaudível:

- Parabéns! – Fazendo-a sorrir.

Naquele instante, em Maghnessy, o Maghnussy chamou um de seus asseclas:

- Preciso que faça contato com a Chefdiplomat Sharan de Thrittan, Meghessu.

- Mas, Maghnussy, o que pretende fazer?

- Acabar com essa farsa! Ninguém pagará por algo que não cometeu.

Momentos depois, o zellsektor se acendia e Antares aparecia em toda sua opulência diante da cela de Corr Sairy:

- Você é uma pessoa nobre. – Ele disse, enquanto Corr Sairy se levantava para encará-lo:

- Obrigado por isso. Mas de onde veio esse elogio?

- Seus préstimos. Você auxiliou Crisyen em uma crise homérica. – Corr Sairy se espantou com o pronunciamento da palavra. – Sim, andei estudando os jargões terranos. Homérico é enorme, gigantesco, se refere ao poeta Homero, que escreveu Ilíada e Odisseia.

- Está aprendendo.

- Seu antigo povo é rico dessas... informações. Mas, como ia dizendo, você não cobrou nada dos crisyenos e eles lhe deram um nome, mesmo assim...

- E uma missão!

- Sim, a Erregina Tyth Annis disse que você tem um objetivo.

- Exato, que já cumpri, por sinal.

- Fez préstimos a eles para que saldassem uma dívida, que nem lhes pertencia de verdade. Serviu a Kelkzerr, mas não cobrou por isso. E salvou a Megami Aryannin de um fim trágico.

- Você não parecia feliz com este último.

- Sou seu acusador, Corr Sairy, tenho de usar os fatos contra você, mesmo que não concorde.

- Quem lhe forneceu aquele áudio adulterado?

- Não convém no momento quem o fez, mas Sharan mostrou a verdade. Você não pensava em Crisyen quando cobrou aquele valor e, por causa de um possível traição do Migoto Akonyionn, salvou a Megami Aryannin e o krarrashin Kotharyn. Por que aceitou a todas essas acusações, se sabia de sua inocência?

- Porque elas existiam. Eu não podia simplesmente vir e falar, “olha, essas aqui são as verdades”, pois poderiam desaparecer e eu estaria lascado agora. Precisava desse julgamento para provar que não era culpado das acusações que estabeleceram para mim.

- Você acha que elas desapareceriam?

- Confederado Antares, como você ouviu naquele áudio, eu não tenho como confiar em mais ninguém. Desaprendi isso. Quando dependo de alguém, espero que ela me ajude, mas não quer dizer que confiarei nela. Como no caso da Chefdiplomat Sharan. Eu dependo dela, mas estou aprendendo a confiar nela. Seria algo (quase) inédito para mim.

- Que bom que pude chegar e ouvir isso. – Disse Sharan, com eletroestática a sua volta, se posicionando ao lado de Antares. – Confederado Antares de Mæsttra?

- Chefdiplomat Sharan de Thrittan...

- Imagino que toda essa energia transbordando do seu traje seja uma notícia boa. – Disse Corr Sairy.

- Melhor que boa. – Respondeu Sharan. – Maravilhosa, pois vou conseguir retirar a acusação de assassinato de você. – Corr Sairy olhou abismado para ela e, mesmo sem aparentar muito, Antares ficou estupefato. – O Maghnussy acabou de falar comigo e me contou o que ocorreu, de verdade.

- Do que está falando, Chefdiplomat Sharan? – Questionou Corr Sairy:

- Ele falou que o assassinato do pai dele, o Maghnussy, foi cometido por ele, e que Corr Sairy o ajudou a esconder o fato, pois ele não queria que seu povo soubesse.

Corr Sairy estava perplexo e não sabia o que falar. Sentou em sua cama e somente disse:

- Por que ele fez isso? – Olhando para a forma taciturna que Corr Sairy ficou, Sharan disse:

- Porque ele não podia aceitar que você fosse acusado por isso. Você não parece nada feliz por ele ter te inocentado. Você não quebrou sua promessa com ele, pois foi o Maghnussy que confessou.

- Você não entende, Sharan. Isso muda tudo!

- Sim, muda tudo, Corr Sairy. Você será inocentado e poderá sair daqui livre (caso a Confederação Galaxial considere os outros crimes provados a favor de você) e, para mim, é o mais importante. Preciso falar com o Confederado-mor e seu suplente.

- Eu a acompanharei. – Disse Antares, e se dirigiu para Corr Sairy. – Definitivamente, você é uma pessoa nobre.

- Não fique assim, vamos ver o que o Confederado-mor decidirá. – E Sharan saiu, junto com Antares, deixando Corr Sairy cabisbaixo e amuado.

Posteriormente, Corr Sairy é levado de sua cela até a sala de Conferências da Confederação Galaxial. Lá estão os confederados, com exceção da Terra e de Darkyan, seu acusador, Antares, sua defensora, Sharan, e ao lado de Antares, o Confederado de Maghnessy, Maghssu. O Confederado-mor começou falando:

- Essa foi uma chamada extraordinária do julgamento, a pedido da Chefdiplomat Sharan de Thrittan, como defensora do crisyeno Corr Sairy. O que será dito aqui, deverá permanecer aqui, a pedido do Maghnussy de Maghnessy, através do seu Confederado, Maghssu. Corr Sairy você terá direito livre de voz. – Então uma projeção surgiu no púlpito onde Corr Sairy ficara, durante todo o se julgamento, era o Maghnussy:

Confederado-mor Stahirr de Thrittan, confederados dos planetas-membros, - se virou e viu os outros – Confederado Maghssu...

- Maghnussy. – Disse Maghssu, reverenciando.

- Confederado Antares de Mæsttra, Chefdiplomat Sharan de Thrittan e meu amigo Corr Sairy. Obrigado por manter a promessa, mas eu não poderia permitir que fosse preso.

- Maghnussy. – Disse Stahirr. – A Chefdiplomat Sharan de Thrittan veio à minha presença e disse que confessa não ter sido Corr Sairy o responsável pelo assassínio de vosso ascendente.

- Exato, Confederado-mor Stahirr. Fui eu que cometi o assassinato do meu ascendente.

- Poderia nos explicar mais?

- É claro, Confederado-mor Stahirr. Como todos bem sabem, eu e meu ascendente estávamos em conflito pela posição que ele ocupava. Este conflito se dava pelas minhas discordâncias da forma dele gerir o planeta. Ele beneficiava a si mesmo e aos nobres que o bajulavam, deixando nossa população sobrevivendo a duras penas. Fazendo trabalhos exaustivos por ninharias, pois o grosso ficava com os bajuladores do meu ascendente.

“Desde tenra idade havia iniciado o conflito, pois não tinha proximidade o suficiente dele para poder levar a frente uma tradição familiar onde descendente desafia ascendente e, se vencê-lo, poderá ser o novo Maghnussy. Mas não é uma vitória simples, mas sim banhada de sangue.

“Mas veio a feall[10]. Por vezes, meu aníos[11] tentou infiltrar um dos seus nas minhas fileiras, mas se eu não conhecia, um de meus minions[12] conhecia, o que dificultava qualquer tentativa dele. Então surgiu um desconhecido, muito parecido conosco. Calvo, cor de pele semelhante à nossa, que possuía uma forma de falar diferente, mas que vinha com estratégias diferenciadas, que nos ajudaram muito. Determinado momento, este me chamou a sua espaçonave e me disse que havia sido contratado para me espionar e haviam lhe dito para me matar, mas que ele não o faria, pois não era de sua índole. Senti-me duplamente traído, pelo meu ascendente e por aquele homem. Permiti que saísse dali, mas o fiz jurar que regressaria para nos ajudar. K-Rarrs passaram e nada dele retornar. Até que, um dia uma espaçonave pousou em um campo próximo de nosso esconderijo e era aquele homem. Ele estava diferente, uma enorme cicatriz no lado direito do seu rosto, ele usava algo tampando o globo ocular direito e sua voz soava diferente, mas eu o reconheci. Ele disse seu nome, Corr Sairy, e que havia voltado para cumprir a promessa.

“Ele me contou o que acontecera com ele após sair de Maghnessy e, sinceramente, considerei como uma justiça divina. Mas, ele também disse que sabia uma forma de terminarmos aquele conflito mais brevemente. Disse que havia estudado os dutos de escoamento que davam na Seoladh Maghnussy. Então planejamos e ele se ofereceu como isca para ludibriar meu ascendente, pois quase prestara um serviço encomendado para este.

“Com o plano encaminhado, Corr Sairy foi a Seoladh Maghnussy e, como dito, o enganou”.

- Eu disse ter cumprido o combinado, mostrando para o Maghnussy a Ordem de Serviço que ele havia acertado com a Terra. Cobrei-lhe 10 créditos, pois era seu descendente e nos encaminhamos a sua sala adjunta da Morada. – Disse Corr Sairy.

- Antes que o julgue por isso, Confederado-mor Stahirr, ele cumpria uma promessa e, não sei em que artigo está isso, devem ser cumpridas as leis e normas de cada planeta-membro da Confederação Galaxial.

“Seguindo, Corr Sairy e meu aníos estavam na sala adjunta, quando surgi de um canto desta. Havia entrado ali no período anterior, durante o crepúsculo, pelos dutos de escoamento, e esperava. Meus minions estavam espalhados pela Seoladh Maghnussy, em cantos bem escondidos, esperando minha decretação de vitória. Confrontei meu aníos e o venci, com Corr Sairy como testemunha de tudo. Saímos da sala adjunta com minhas mãos sujas do sangue de meu aníos, como manda a tradição. Meus minions dominaram os soldados da Seoladh Maghnussy, de forma silenciosa. Estávamos preparados para aquilo há k-rarrs. Sem disparos, somente armas de empunhadura. Antes de Corr Sairy sair, eu não queria que meu povo soubesse como vencera meu pai, não queria perpetuar a história de cinedhíothú tuismitheoirí[13]. Combinamos que, em juramento nunca ninguém falaria que meu aníos tinha sido morto por mim. Deixaríamos a dúvida do que ocorrera.

“Eu vinha gerindo meu planeta bem, até que surgiu a suspeita do cinedhíothú tuismitheoirí. Não sei se foi quem preparou o corpo de meu aníos, mas a notícia se espalhou pelo planeta e, meu minion ismó[14], Meghessu, teve a ideia de lançar a presunção da culpa sobre Corr Sairy, dizendo que ele era o marú[15], pois ele entrara na Seoladh Maghnussy e saíra, pela frente, e tínhamos a projeção disso. Enviamos para Maghssu, que também foi um minion e testemunhara o ocorrido e, a meu pedido, ele lançou a presunção de culpa de Corr Sairy”. – Maghnussy se virou para Corr Sairy naquele instante. – Me perdoe, meu amigo, por ter deixado isso assim.

- Mas, Maghnussy, por que vir com a verdade agora? – Questionou Antares.

- Entenda Confederado Antares, apesar de Corr Sairy ter nos ajudado na tomada do poder de Maghnessy, uma faísca de mágoa ainda dominava meu ser. Meus minions sempre acharam que foi um erro eu ter permitido a fuga de Corr Sairy. Quando ele retornou com o rosto destruído, todos ficamos felizes com aquilo, pois considerávamos o castigo merecido. Somos um povo com emoções afloradas, não respeitamos nossas fêmeas. Nós as vemos como reprodutoras, somente. Tento mudar isso, mas é um processo longo e complexo para Maghnessy. Com o tempo e a convivência percebemos que Corr Sairy era um aliado e não um inimigo. Mas quando veio a culpa, como não queríamos mudar nossa promessa, jogamos a culpabilidade em quem não era um de nós.

“Posso não estar presente para acompanhar o julgamento de Corr Sairy, mas tenho assistido a tudo, à distância, com meu minion Meghessu e minha céile[16], Mighanna. Como disse, quero mudar as coisas e para isso ocorrer, deve começar comigo. Mighanna tem me ajudado nesse processo, também.

“Meghessu, ao ver o julgamento, vem tentando mudar essa incriminação, mas ele não pode fazer nada sem eu autorizar. Então, quando ouvi o relato do que ocorrera com Corr Sairy no ataque de quando ele saiu daqui, e todos os relatos das pessoas que o apoiam, não podia seguir com isso”.

- Mas, Maghnuss, seu povo vai saber... – Disse Corr Sairy com a voz abalada.

- Que saibam. – Disse o Maghnussy (sem se importar com apelido) à Corr Sairy, de forma tenra. – Não serei um bom Maghnussy se viver na mentira. Se quero mudar, isso tem de se iniciar por mim, como Maghnussy assumo a culpabilidade pelo assassinato de meu ancestral.

Um silêncio pesaroso tomou conta do local, até Stahirr se pronunciar:

- Corr Sairy de Crisyen, deseja acrescentar algo. – Corr Sairy sabia que precisava falar, mas não conseguiu, então somente sacudiu a cabeça negativamente, percebendo o peso, Sharan falou por ele:

- Confederado-mor Stahirr, posso falar por Corr Sairy. – E Stahirr somente apontou para ela. – Confederado-mor Stahirr, Corr Sairy não tem nada a acrescentar.

- Maghnussy, deseja acrescentar mais alguma coisa? – Questionou Antares ao Maghnussy, que ainda era projetado no púlpito:

- Somente que lamento por todo o transtorno que lhe causamos, Corr Sairy. Não tínhamos ideia do que havia lhe acontecido, até ouvirmos tudo. Foi doloroso ouvir, meu amigo, imagino como deve ter sido para você passar por aquilo. Eu Maghnussy de Maghnessy encerro aqui meu relato. – E a projeção se encerrou e Stahirr tomou a palavra novamente:

- Que fique claro para todos os confederados aqui presente, as palavras ditas pelo Maghnussy nunca deverão sair desta sala. Neste momento, retiro de Corr Sairy as acusações de assassinato de um governante, membro ou representante de um governo dos planetas-membros da Confederação Galaxial, que ferem o Artigo 4 da Lei da Confederação Galaxial. Mas ainda precisamos analisar os demais crimes e as provas favoráveis e acusatórias ao crisyeno e, por isso, peço que retorne ao zellsektor, mas deixaremos aberto, caso deseje circular pelo corredor.

“Quanto a tudo que viemos testemunhando de você, Corr Sairy (apesar de burlar nosso sistema de restrição), durante seu encarceramento e seu julgamento, a Confederação tem de considerar que és um ser querido por aqueles que o cercam. Não vemos muito isso com qualquer outro que tivemos de julgar, independente do crime. Levaremos isso em conta, quando formos analisar cada uma das provas. Podem leva-lo”. – Corr Sairy ouviu àquilo, mas sua cabeça ainda estava em Maghnessy. Durante o trajeto para o elevador e o zellsektor, ele parecia taciturno e distante. Entrou em sua cela e quando as luzes se apagaram, ele começou a chorar, sem saber o motivo, somente chorou, extensivamente, como nunca acontecera antes com ele. Uma tempestade de lembranças lhe veio a memória. A perda de Thiago e Marcela, a perda de Josiane e Cynthia, a perda de seu olho, o casamento de Skill e H-Kik, o assassinato do Maghnussy na sua frente. Era um turbilhão de emoções que emergiam e ele somente queria chorar. Sentou no chão de sua cela, encolhido e chorando até cair no sono.

Corr Sairy não sabia quanto tempo tinha passado, mas ele se sentia descansado quando acordou ao ouvir a voz de Skill Hawkesley:

- Você sabe que tem uma cama, não? – Skill brincou e recebeu uma cutucada de H-Kik, que estava ao seu lado:

- Você está bem, Corr Sairy?

- Sim, obrigado por perguntar, H-Kik. Você sempre será o lado gentil dessa relação. – Corr Sairy percebeu que dormiu deitado no chão da cela. Ele então se levantou e saiu da cela para ficar mais perto dos amigos. – Eles me deram permissão para poder circular nos corredores.

- Ficamos sabendo que você foi inocentado do crime de assassinato do Maghnussy, mas ninguém fala o que houve. – Argumentou H-Kik.

- Foi um julgamento sigiloso, a pedido do Confederado Maghssu. – Falou Corr Sairy. – A Confederação fez com que todos prometessem sigilo quanto a isso, então não posso comentar.

- Bem, - começou Skill, sem graça pela forma como agiu com Corr Sairy – isso é uma boa notícia, não? Pelo que vi, até o momento, você será totalmente inocentado.

- Será, Skill? Não sei se isso acontecerá, pois Confederação disse que precisa analisar as provas contra e a favor de mim. Acho que eles pretendiam me vencer com o assassinato do Maghnussy, mas quando Maghnuss me inocentou, a Confederação se viu sem recursos, principalmente por causa de Sharan ter conseguido desmantelar uma rede de comércio ilegal pelas costas da Confederação, mostrar uma conspiração para meu assassinato e colocar em dúvida a questão do mercenarismo. Será uma derrota tripla para a Confederação Galaxial.

- Você acha que eles o traíram? – Questionou H-Kik. – Mas P-Tron nos disse que lhe trataram tão bem e agora você tem liberdade para andar pelos corredores.

- Mas não posso sair daqui, H-Kik. Ainda estou preso aqui embaixo. Podem achar que estou imaginando coisas, mas eles vão encontrar um buraco nas provas pra me mandar para o Satélite-prisão ou para o exílio.

- Eles não farão isso, meu amigo. – Disse Skill, pousando a mão no ombro de Corr Sairy. – Você sairá daqui e irá assistir ao batizado de nossos filhos, como padrinho deles. – Corr Sairy olhou nos olhos de Skill e viu aquela sinceridade e apoio que sempre teve em toda sua vida, então os três se abraçaram:

- A barriga já está crescendo. – disse Corr Sairy, ao se separarem. – Não sou a pessoa na melhor forma do mundo, então minha barriga tocou na sua.

- Sim, - respondeu H-Kik, com um sorriso – Ronald fez alguns exames preliminares (ele era médico e tenente nas Forças Armadas da Terra) e, de acordo com o que vimos na projeção do ultrassom, são duas crianças. Dois pequenos ovos que estão brotando dentro de mim.

- Fico muito feliz por vocês dois. Sei que Josiane e Cynthia também ficariam. – Skill sentiu o pesar naquelas últimas palavras:

- Rodrigo, por que as mencionou agora? – Há muito tempo Corr Sairy não ouvia o seu amigo chama-lo pelo nome. – Tem mais ou menos dois milênios terranos que isso ocorreu. Nem no nosso casamento você as mencionou.

- Não sei. – Disse Corr Sairy, pensativo. – Sabe por que eu dormi no chão? Porque várias emoções surgiram em mim quando fui colocado naquela cela. Desde que Josiane e Cynthia morreram, primeiro achei que fosse uma conspiração e tentei descobrir porque e quem a mataria e somente descobri que era um executivo babaca que, ao invés de prestar atenção ao trânsito, fazia uma reunião virtual dirigindo. Daí regressei a minha patente para fazer serviços escusos. Sim, por vezes você me avisou que aquilo não era certo, Skill, mas eu queria me colocar entre o duvidoso e o ilegal. Daí veio o transporte de um assassino para Thrarkus. Naquele momento, eu pensei que a missão final dele seria dar cabo de mim, pois eu conhecia seu rosto. Quando eu vi a vida de Maghnuss em minhas mãos, aquilo me despertou que eu estava agindo errado. Mas, mesmo tendo uma segunda chance, eu errei novamente. Eu havia voltado a ser aquela pessoa que era antes de Josiane. Antes dela me colocar na linha. Eu pulei de relação em relação, sem me preocupar com nenhuma delas. E quase fui pego, pois fui traído mais uma vez. O lance é que...

- Você não confia em mais ninguém. – Completou Skill.

- Exato. Me perdoe, meu amigo, por isso, mas eu não consigo mais confiar em ninguém. Quando eu pensei que pudesse confiar em Sharan, ela me surge com... – Por pouco Corr Sairy fala sobre o que aconteceu durante o julgamento sigiloso, mas Skill falou:

- O trabalho dela é inocentá-lo, Corr Sairy. Você não pode ver dessa forma o que ela fez por você. Se tinha surgido uma nova prova que poderia inocentá-lo, ela tinha que usar.

- Mas a troco do quê? Essa é a questão! E, mesmo assim, a Confederação me condenara!

- Você não deve pensar assim, Corr Sairy. – Disse H-Kik. – O que a Confederação tem contra você? Os transportes que você fez foram de responsabilidade da Terra e do Confederado Victor Cambasi. Você não praticou mercenarismo, pelo contrário, ajudou ao planeta que lhe adotou. E é inocente de um assassinato. Eles não têm nada contra você.

- Eles sempre têm, H-Kik. Eles sempre têm! – Corr Sairy entrou, novamente, em sua cela e sentou em sua cama. Percebendo que não mudariam a forma de pensar do amigo deles e, conhecendo Corr Sairy, Skill e H-Kik saíram dali sem falar mais nada. Quando Corr Sairy se virou, viu que eles haviam partido. “Obrigado pela força, meu amigo”, Corr Sairy pensou e voltou a se deitar na cama.



[1] Magnanimus = Magnânimo

[2] Crisyen Kongresuko Burua = Chefe do Congresso de Crisyen

[3] Fealltóir = traidor

[4] Erregea = Rei

[5] Polemistés (πολεμιστές) = guerreiras

[6] Errege Kontseilarien Kidegoa = Corpo dos Conselheiros Reais

[7] Crisyen-eko Errege Aholkularia = Conselheiro Real de Crisyen

[8] Titulazio ekitaldia = Cerimônia de Titulação

[9] Sovrano = Soberana

[10] Feall = traição

[11] Aníos = ascendente

[12] Minions = asseclas

[13] cinedhíothú tuismitheoirí = genocídio parental

[14] minion ismó = assecla maior

[15] Marú = assassino

[16] Céile = cônjuge

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