Ja Kris conhecia Corr Sairy de tempos atrás, quando o ajudou na sua recuperação em Phællans. Sem contar que era casada com uma das pessoas mais geniosas que conhecia no seu planeta, o Confederado Pan Rrar. Exímia guerreira sabia manter a calma diante das piores situações, das mais caóticas as mais ridículas. E, para ela, aquela reclamação de Corr Sairy era a segunda:
-
Se você parar de tagarelar e nos seguir, logo, o Portal não ficará aberto mais
tempo. Estudos feitos pelo próprio Lyn Xus já mostraram que as Fendas Hipertemporais
são totalmente fechadas, sem deixar fissuras. E é por isso que somente kelkzerrins
podem fabricá-los, pois eles mantêm a configuração. Ou você anda fabricando,
também? – Corr Sairy sentiu o tom irônico de Ja Kris naquelas últimas palavras.
Corr
Sairy, por vezes, questionou Lyn Xus a respeito das Fendas Hipertemporais e
quando ajudou a Illuminus Hannia e sua irmã Luannia a colocar ordem nos dois
lados do Sistema KellDesh, verificou que os testes eram feitos com precisão e
sem falhas. Mas, mesmo assim, ficava temeroso.
S.E.,
obedecendo ao pedido de Ja Kris, se colocou ao seu lado e passaram pela Fenda
Hipertemporal, chegando ao Sistema Vertus, o mais próximo possível de Thrittan.
Quando a fenda se fechou atrás deles, uma nova nave juntou-se a eles e Corr
Sairy a reconheceu de imediato, era Antares:
-
Escoltarei com vocês o criminoso Corr Sairy, Umholi omkhulu Ja Kris de
Phællans, se me permitir! – o Confederado disse em uma transmissão que
sintonizou com Ja Kris e Corr Sairy.
-
Não vejo por que não, Confederado Antares. – Ja Kris respondeu.
-
Ficou chateado com o Campo de Contenção, Confederado Antares? – Brincou Corr
Sairy, mas antes Antares bloqueou a transmissão. – É, acho que ficou chateado.
Ao
entrarem na atmosfera de Thrittan, S.E. chegou a tremer com as descargas de
energia eletrostática que o atingiram:
-
Sério, está fazendo cócegas. – Ele reclamou com Corr Sairy. Abaixo dele e das
naves dos representantes phællansis abriu-se uma comporta que os levou a um
hangar hermeticamente isolado. Assim que pousaram, uma mensagem foi comunicada à
Corr Sairy:
-
Corr Sairy de Crisyen, você está detido pela Confederação Galaxial pelos crimes
de: Transporte ilegal de Materiais e pessoas, ferindo o artigo 13 da Lei da
Confederação Galaxial; Sequestro de governante, membro ou representante de um
governo dos planetas-membros da Confederação Galaxial, ferindo o artigo 5 da
Lei da Confederação Galaxial; Mercenarismo, ferindo o artigo 54 da Lei da
Confederação Galaxial; Assassinato de um governante, membro ou representante de
um governo dos planetas-membros da Confederação Galaxial, ferindo o Artigo 4 da
Lei da Confederação Galaxial. Você pode alegar inocência dos crimes aqui
citados e requerer a Confederação Galaxial um representante entre os
Confederados ou àquele que lhe aprouver, desde que seja de um planeta-membro da
Confederação Galaxial e conhecedor das Leis da Confederação. Você ficará
confinado em uma cela com total isolamento e impossibilitado de comunicação com
o Anima Mundi ou uso do seu chip neural, que ficará restrito ao tradutor
omniversal. Um traje lhe será fornecido para que não sofra com o ambiente
energizado de Thrittan. Você deverá usar o capacete do traje até a sua cela,
que estará harmonizada para se sentir ambientado. No dia e momento do seu
julgamento, lhe será fornecido um respirador portátil que deverá usar o tempo
todo. Caso seja julgado culpado dos crimes citados, você será enviado,
dependendo de sua culpa, para o Satélite-prisão, aonde ficará encarcerado, ou
para a cadeia de asteroides que são mantidos prisioneiros com possibilidade de
soltura, com suprimentos o suficiente para o tempo que permanecer lá. Caso
tenha alguma dúvida, por favor fale agora...
-
Quando eu cometi o crime de sequestro de governante? – Corr Sairy questionou a
imagem que estava sua frente.
-
O crime de sequestro de governante, membro ou representante de um governo dos
planetas-membros da Confederação Galaxial, que fere o artigo 5 da Lei da
Confederação Galaxial, foi cometido quando retirou a Megami Aryannin do planeta
Volos VI acompanhado de uma jovem sem nome e raça citados e de um krarrashin
sem nome citado. Seus cúmplices estão sendo buscados para serem julgados pelo
crime. Conhece o destino deles? – Disse a projeção. Corr Sairy então pensou que
o Migoto Akonyionn o acusara e deu um sorriso com isso:
-
Aonde está o traje, então? – Ele questionou.
-
Antes precisamos da confirmação que entendeu as acusações e os termos de sua
permanência em poder da Confederação Galaxial?
-
Sim, entendi. – A projeção desapareceu e, enquanto Corr Sairy se despia de seus
trajes costumeiros, S.E. lhe comunicou que alguém o esperava do lado de fora.
Autorizada a entrada da pessoa, o Confederado Antares apareceu na frente de
Corr Sairy com seu traje:
-
Eu o levarei até sua cela. – Disse Antares com sua voz calma e sem semblante de
estátua.
-
Sério, Antares, não fique com raiva do Campo de Contenção. Se eu não fizesse
aquilo, não teria conseguido fazer o que precisava antes de ser enjaulado.
Espero que não role ressentimentos. – Antares não disse nada para Corr Sairy.
Somente o observou colocar as braçadeiras e ver o traje gerar em volta do corpo
daquele homem de estatura mediana. Quando Corr Sairy colocou o capacete e este
se uniu ao traje, ambos saíram do interior de S.E.:
-
A partir de agora, seu acesso ao chip neural será restrito somente para o
sistema de tradução omniversal. – Disse Antares. – Você entendeu esta parte? –
Corr Sairy sacudiu a cabeça em afirmação, mas ele tentou se comunicar com S.E.:
-
“S.E., você está aí?” – Ele questionou e a resposta veio de imediato:
-
“E aqui ficarei. Ainda bem que seu chip neural não segue a configuração dos
outros”.
-
“Esta é a vantagem de ter sido o criador dele, eu conheço o que e como mexer
nele”. – E Corr Sairy seguiu aquele enorme homem escarlate.
O
hangar dava direito em um elevador que ele e Antares entraram. Sem precisar
apertar nenhum botão ou pronunciar qualquer coisa, ambos começaram a descer.
Nenhuma palavra foi trocada entre os dois. Quando pararam e as portas abriram,
um corredor se acendeu a frente deles, dando para vários cubículos em ambos os
lados, mas evitando ficarem um de frente para o outro. Todos estavam vazios:
-
Vocês estão com pouco casos de crimes ultimamente. – Brincou Corr Sairy com o homem
cor de rubi ao seu lado. Corr Sairy precisava olhar para cima para ver a cabeça
reluzente de Antares. Eles pararam diante de uma das celas e esta se acendeu.
Antares apontou para Corr Sairy entrar e ele o fez:
-
Já pode retirar o capacete. – Corr Sairy encostou nele e este se descolou do
traje. – Agora eu lhe pergunto, pois estamos aqui sozinhos, por que me mostrou
tudo aquilo? – Corr Sairy se espantou que, mesmo com a voz soando de forma
calma, Antares parecia consternado. – Eu não me importo com meu passado, pois
foi há muito tempo atrás. E a situação que citou, de tão hipotética, é
estúpida.
-
Pode ser. Mas eu só decidi colocar alguns pingos nos is... já ouviu isso? Sua
história se assemelha muito com a história de Julius Asimov, então me baseei em
uma teoria hipotética de viagem temporal causada por uma tempestade na Estrela
Antares, que pode ter gerado um mini buraco negro, que levou Julius para um
passado remoto. As duas palavras que você pronunciou foram “Antares” e
“Mæsttra” (ou foi o que eles entenderam), então a única coisa que fiz foi fazer
uma relação com as histórias. Mas podem haver outras possibilidades. Só que,
pense bem, não é muito estranho isso tudo? – Antares ficou admirando o
raciocínio daquele homem de tapa-olho, calvo e com a barba grisalha. Por mais
insana que parecesse aquela teoria, parecia ter sentido, mesmo que sem sentido
algum. Ele não poderia ser um terrano que viajou até o passado e foi encontrado
pela Confederação no Primeiro Período Exploratório... e por que seu passado lhe
importava tanto agora. Viveu todo este tempo sem pensar nisso e agora, aquele
homem caolho, cuja estatura batia no seu ombro, lhe despertara este fascínio. O
que estava acontecendo?
Antares
se retirou, deixando o questionamento de Corr Sairy no vácuo. Quando as luzes
do corredor se apagaram, Corr Sairy voltou a chamar S.E.:
-
“E aí, como estão às coisas por aí?”
-
“Tranquilo”. – Respondeu S. E. – “Ainda não vieram me examinar. Você passou por
um escaneamento no elevador. Acredito que nem percebeu, não é?”
-
“Sério? Eles são bons mesmo. Mas não tinha nada para descobrir, pois o chip
neural ainda tem o mesmo número de série que tinha quando eu vivia na Terra.
Configurações do mainframe não podem aparecer em scanners, pelo menos não
essas. Onde eu estou?”
-
“Bem, pelo que eu posso verificar no mapeamento desta base, você está há uns 300
metros abaixo do solo de Thrittan. O isolamento é fenomenal e a nossa
comunicação pode falhar às vezes, mas nada que não seja possível retomar, por
causa da nossa frequência”.
-
“Ainda bem que você pensou nos percalços da atmosfera daqui”.
-
“Pois é. Thrittan é um planeta energético, se assim posso chamar. Seria
impossível para um ser de carbono ou outro elemental viver lá fora. A forma de
procriação deles se assemelha dos Dommæns, unicelular, que eles chamam de ‘spark’
– na melhor forma de tradução possível – e cada um pode gerar dois Thrittanis,
mas, incrivelmente e de forma rara, o spark que gerou Stahirr e Stahokk, também
gerou Sharan. Ou seja, foram gerados três de um mesmo spark, o que eles chamam
de ‘caso raro’ e, por isso, Stahirr tem grande importância para os Thrittanis.
A forma de governança deles é por um Ratder Ausbilder[1],
dizem que foram os primeiros. Stahirr não pode fazer parte por causa deste caso
raro, mas aceitaram que ele assumisse o cargo de Confederado. Já Sharan se
tornou Chefdiplomat[2]
de Thrittan (ou seja, uma líder em diplomacia Thrittanis), buscando a
conciliação dos planetas, então ela viaja dando conselhos, não participando de
batalhas. Este cargo dela, antes pertencia a Stahokk, mas este se voltou contra
a Confederação Galaxial e criou um grupo de renegados, pessoas insatisfeitas
com a forma de atuar da Confederação Galaxial. Entre os membros destes
renegados estavam Ikken Bergg, de Callyns, Davith Hitarr, de Bhlokyonss, e...”
-
“K’rynn Swiss, de Dharkyens”. – Disse Corr Sairy, de forma triste. E continuou.
– “Eu conheço Sharan. Ela foi a Crisyen como Friedensberater (um tipo de conselheira
de paz dos Thrittanis). Ela é boa, mas nada faria aquele desgraçado devolver o
trono de Crisyen. Queria poder saber mais sobre o caso destes renegados, mas
não acho seguro acessar o Anima Mundi. Nem você deve fazer isso, entendeu? Não
devemos chamar atenções desnecessárias”. – E um silêncio se fez. Corr Sairy
acreditou que a ligação deveria ter sido cortada, pois S.E. falou desta
possibilidade.
O
silêncio era enlouquecedor, mas Corr Sairy preferiu deitar-se e descansar, pois
ele tinha certeza que, em breve, as visitas começariam.
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