Assim que saiu do elevador, no andar da Confederação, Stahirr se dirigiu a sua sala e lá convocou Sharan. Quando ela chegou, pediu que se sentasse a sua frente e ela o fez e ele iniciou:
-
Chefdiplomat Sharan de Thrittan, o criminoso Corr Sairy a convocou para que
sejas defensora dele. – Sharan, jogou a cabeça para o lado. Como Stahirr, seu
traje de isolamento não permitia demonstrações de emoções, mas sua voz soou com
incredulidade:
-
Corr Sairy? O acusado de assassinato do Maghnussy de Maghnessy? Por que ele me
escolheria? Nem o conheço.
-
Mas ele lhe conhece. Quando serviu de intermediadora na guerra de Crisyen. Ele
estava na cidade-satélite que ocorreu a negociação e viu sua forma de interagir
com os rivais.
-
Sim, foi uma intermediação pública. Eram muitos rostos. Juro que não me lembro
dele, Confederado-mor.
-
Eu acredito em você. Mas você é a escolha dele e, para escolher se continuará
ou não, precisará conhecer ambos os lados. Não pode agir de forma parcial. Se
achar que ele merece sua defesa, nos avise, pois preciso determinar quando
ocorrera o julgamento. – Sharan se levantou e saiu. Ela não acreditava que
aquilo estava ocorrendo, pois a primeira vez que ouvira o nome de Corr Sairy
foi quando a Confederação determinou a todos os representantes dos
planetas-membros caçarem o assassino do Maghnussy. Ela soube o que ocorreu com
Risan Cloniech e com Antares e não queria ter que defender este tipo. Como a
decisão somente poderia ser tomada depois de conhecer e conversar com o acusado,
Sharan se dirigiu ao elevador e foi ao andar das celas. Quando chegou, ao se
colocar de frente a cela de Corr Sairy, se deparou com um homem sentado no
chão, em posição de meditação:
-
O que está fazendo? – ela questionou ao vê-lo sentado no chão.
-
Nada. – Corr Sairy disse. – Lá na Terra as pessoas têm o costume de sentar
assim e meditar. No meu caso eu somente queria sentar. – E deu um sorriso de
lado, ressaltando a cicatriz que passava pela lateral do rosto, cortando o
olho, abaixo do tapa-olho.
-
Por que não fez uma reconstrução, eliminando esta cicatriz e recolocando um
olho no lugar deste... troço.
-
Ah, isso é para me lembrar de que quando confiamos demais, sempre acaba no pior
para a gente. – Corr Sairy então levantou de onde estava e ficou de frente para
Sharan, percebendo que ela era mais alta do que ele lembrava. – Pelo jeito o
Confederado-mor já lhe avisou que eu a escolhi como minha defensora.
-
Agora eu me lembro de tê-lo visto em Crisyen. Fica difícil não se lembrar disso
que usa sobre o olho. Ninguém usa. Mas você era somente um ajudante dos
phællansis. Como conseguiu se tornar o herói da Guerra de Crisyen. – Corr Sairy
pareceu incomodado com o comentário de Sharan.
-
Não sou um herói. O que aconteceu é que eu tive uma ideia e eles concordaram.
Heróis foram os que enfrentaram o Usurbildarra e pereceram em combate. Eu
somente lancei a estratégia...
-
Que te tornou a responsável pela queda de Brann Dawh. Eu senti que seria
impossível ele largar o trono de forma natural...
-
E foi por isso que eu escolhi você. Quando você saiu de Crisyen, naquele dia da
negociação, me falaram que escolheram os Thrittanis, pois vocês têm a
sensibilidade para reconhecer a índole de cada um. Que vocês são os melhores
negociadores de acordos da Confederação Galaxial, por reconhecer o caráter,
desde que não seja um Thrittanis. Ou seja, eu entendi que vocês são excelentes
detectores de mentira.
-
E o que isso tem a ver com você?
-
Você saberá se eu estou mentindo ou não, quando eu digo que sou inocente de
todas as acusações. – Sharan olhou profusamente para Corr Sairy e não percebeu
nenhuma mudança de energia em volta do acusado quando ele disse que era
inocente:
-
Nem do assassinato do Maghnussy?
-
Não. – A energia dele se mantinha estável. Mas ela sabia que aquilo não seria
suficiente:
-
Está bem, eu aceitarei o seu caso. Mas minha percepção não serve para
inocentá-lo, principalmente pelas acusações virem de confederados e do líder do
planeta Volos VI.
-
Eu tenho como provar que tudo o que eles dizem não é verdade, principalmente o
sequestro da Megami Aryannin. Eu fui contratado pelo Migoto Akonyionn para
resgatá-la de um sequestro que ocorreu por parte do krarrashin Kotharyn...
-
Está bem. – Sharan o bloqueou. – Antes de continuarmos esta conversa, preciso avisar
ao Confederado-mor Stahirr que aceitarei seu caso. – Sharan então se retirou e
voltou pelo caminho que veio. Quando as luzes se apagaram fora da cela, Corr
Sairy voltou para a posição que estava e entrou em contato com S.E.:
-
“Preciso que você entre em contato com Aryannin e a avise que pedirei a Sharan
para entrar em contato com ela. Contarei que eles estão em Phællans”.
-
“Mas você não acha melhor avisar a Li Kkan sobre isso?”
-
“Não. Eu não quero que eles desconfiem que tenho uma comunicação com você. Só
avise. Outra coisa, separe todos aqueles arquivos que guardei. Eu sabia que
isso serviria para alguma coisa um dia”.
-
“E como ficamos com o caso do assassinato? Ele poderia mudar tudo, se você
quiser eu falo com ele”.
-
“S.E., não vamos incomodá-lo com isso. Eu fiz um acordo com ele e vou mantê-lo.
Não contarei a ninguém a verdade e nem pedirei que ele faça isso. Teremos que
torcer pelo benefício da dúvida, pois a projeção não mostra muito”.
-
“Está bem, vou fazer o que pediu”. – E cessou a transmissão, deixando Corr
Sairy sozinho novamente.
Aryannin
caminhava nos jardins do Palácio de Li Kkan. Ela preferiu isso do que ficar
presa dentro do seu alojamento. Marcelle foi conhecer a cidade com Pum Riss, irmã
de Ti Kkrus. Já Kotharyn preferiu ir conhecer a academia de luta dos phællansis.
Enquanto
caminhava entre tantas plantas e via animais correndo ou saltando nos
arboríferos, aquilo tudo lhe parecia ao mesmo tempo semelhante e inédito, como
algo ainda difuso em suas mais antigas lembranças de uma vida passada, ela
ouviu uma voz em sua cabeça, era S.E.:
-
“Desculpe atrapalhar sua tranquilidade, Megami Aryannin, mas Corr Sairy pediu
para lhe avisar que deverá, em breve, receber uma chamada. Infelizmente ele não
permitiu que falasse mais do que isso, mas creio que seja a respeito de seu
sequestro”.
-
“Onde você está S.E.?” – Ela o questionou, olhando para o espaço aberto sobre
sua cabeça, tentando localizá-lo, pois havia aprendido a controlar um de seus
dons, a capacidade de ver a longa distância. – “Não consigo localizá-lo”.
-
“Você consegue ver o espaço?” – S.E. soou espantado. – “Uau, essa foi boa. Bem,
eu ainda estou no hangar da Confederação Galaxial, em Thrittan. Como Corr Sairy
é a pessoa responsável pela criação dos chips neurais, ele tem como configurar
que as chamadas passem pelo Anima Mundi, assim podemos alcançar qualquer pessoa
que o Anima Mundi tem alcance. Legal, né?” – Aryannin pensou que S.E. parecia
um jovem descobrindo o mundo com seu jeito de falar, e ele lhe disse. –
“Obrigado por me ver desta forma. Bem, recado dado, vou nessa”. – E cessou a
comunicação. Aryannin queria correr para contar a Kotharyn o que S.E. havia lhe
dito, mas preferiu não o fazer. Ela poderia ser a única forma de inocentar Corr
Sairy de uma das acusações e não pretendia envolver mais ninguém com isso.
De
volta a Thrittan, Sharan voltava a sala do Confederado-mor Stahirr:
-
Confederado-mor Stahirr, desculpa interrompe-lo, mas decidi aceitar o caso do
acusado Corr Sairy de Crisyen. – Stahirr olhou para ela, descentre e questionou
por que aceitou. – Ele não me pareceu culpado de nada que o incriminam, mas sei
que isso não serve, então o ajudarei a ser inocentado.
-
Se é assim que vê, prepare seu caso. O acusador será o Confederado Antares e,
na contagem de tempo da Confederação, marcarei o julgamento para 14 arrs.
Mandarei o comunicado para os planetas-membros da Confederação. Isso será o
suficiente para preparar seu caso?
-
Acredito que sim. Conversarei novamente com Corr Sairy, pois ele já começou a
me revelar a possibilidade de ter provas que o inocentam. Obrigada,
Confederado-mor Stahirr. – E Sharan saiu da sala do Confederado-mor. Assim que
ela se retirou, Stahirr chamou novamente Goliath Hitarr e pediu que Victor
Cambasi comparecesse à sua sala. Assim que o Confederado da Terra chegou à sala
do Confederado-mor, o viu sentado ao lado de seu suplente. A cadeira que lhe
servira outras vezes o esperava, mas antes de sentar o Confederado-mor já lhe
questionou:
-
Confederado Victor Cambasi, você pode nos garantir a culpabilidade dos crimes
que o acusado Corr Sairy de Crisyen cometeu? – Cambasi não aparentou entender o
questionamento do Confederado-mor. – Lhe pergunto, pois a Chefdiplomat Sharan de
Thrittan aceitou defende-lo, e me disse que o acusado tem provas da inocência
dele.
-
Isso seria impossível. – Cambasi balbuciou.
-
Por que seria impossível, Confederado Victor Cambasi. – Questionou Goliath
Hitarr. Cambasi se sentiu incomodado com o questionamento, mas tentou manter a
compostura:
-
Porque ele deve ter forjado tais provas. Tenho total certeza que nossas provas
são o suficiente para incrimina-lo por cada crime que Corsário cometeu.
-
Espero que sim, Confederado Victor Cambasi. – Disse o Confederado-mor Stahirr.
– Agora pode se retirar. Prepare suas provas e passe para o Confederado
Antares. O julgamento acontecerá dentro de 14 arrs.
Cambasi
não estava feliz com tudo que foi dito na sala do Confederado-mor, então não
demorou muito e foi direto ao elevador para chegar ao andar das celas. Lá
chegando se colocou em frente à cela de Corr Sairy:
-
Você se acha muito esperto, não é? – Ele falou de certa esbaforida. Corr Sairy
estava deitado. Levantou-se e olhou para Cambasi a sua frente:
-
Você até demorou em me visitar, hein? – Ele disse de forma zombeteira. – Depois
de tanto tempo sem nos falarmos pensei que você tinha me esquecido, Cambasi.
-
É Confederado Victor Cambasi para você. – Cambasi disse de forma aborrecida. –
O que acha que fará? Acha que sairá daqui andando e continuará passeando pelo
espaço em sua nave? Eu garantirei que você apodrecerá em uma cela do
Satélite-prisão.
-
Nossa. Palavras fortes vindo de você! Quando começou a ser uma pessoa tão...
determinada? – Corr Sairy continuou debochando de Cambasi. – Será que é por que
eu estou atrás desta cela. E se eu pudesse sair, como seria? Você sabe,
Cambasi, eu sou um excelente engenheiro. E estamos dizendo que agora sou um
assassino... será? – Corr Sairy faz que vai sair da cela e Cambasi recua, o que
é o suficiente para que o crisyeno dê boas gargalhadas:
-
Você se acha melhor do que eu, não é? – Cambasi parecia que ia perder a cabeça.
Seu rosto ficou vermelho. – Quando você for enviado para o Satélite-prisão, eu
que rirei. – E saiu em passos largos, deixando Corr Sairy gargalhando dele.
Em
Phællans, Aryannin, Marcelle e Kotharyn são chamados para um escritório de
acesso à sala do trono. Quando chegam lá, além de Li Kkan e Elizabeth, estão Lyn
Xus, Ti Kkrus, Le Pann, Pum Riss, Si Berk e Chee Trys:
-
Ah, que bom que chegaram. – Disse Li Kkan, com os três olhando de forma
espantada. – Por favor, entrem e se sentem. Quero lhes apresentar os membros
mais próximos da corte. Vocês já os conheceram quando chegaram, mas somente
lhes apresentei nosso usosayensi omkhulu Lyn Xus, e nosso Injiniyela omkhulu[1]
Ti Kkrus demonstrou sua eficiência. Marcelle você conheceu Pum Riss, ela é
nossa uthisha[2],
isazi-mlando[3]
e umtapo wolwazi[4].
Esta é Le Pann, nossa Inhloko yesiko[5]
e Si Berk é nosso isazi sezomthetho[6].
Já Chee Trys é a induna yonogada[7],
irmã de Ja Kris, que é nossa Umholi omkhulu[8]
e serve como umholi[9]
dos representantes phællansis na Confederação. O nosso Confederado é Pan Rrar, umyeni
de Ja Kris.
-
Por que nos chamou aqui, Ubukhosi? – Questionou Aryannin.
-
Perdoem a empolgação de meu umyeni. – Disse Elizabeth. – Chamamos vocês aqui,
pois foi-nos comunicado que dentro de 14 arrs ocorrerá o julgamento de Corr
Sairy e juntamos a todos para um aviso formal.
-
Exato. – Confirmou Li Kkan. – Ti Kkrus estabeleça contato com os Guerreiros
Alados, na Terra. Prometemos que os chamaríamos, também. – E o Injiniyela
omkhulu de Phællans acionou um bracelete que está usando, gerando uma
comunicação que logo é respondida, aparecendo a frente deles o jovem Ricardo
Dévero:
-
Ubukhosi Li Kkan? A que devemos a honra? – Ele perguntou.
-
Olá, jovem Ricardo Dévero. O major Skill Hawkesley encontra-se? – Questionou Li
Kkan.
-
Vou chama-lo. – E saiu, voltando momentos depois com Skill e H-Kik:
-
Ubukhosi Li Kkan, deseja falar comigo? – Skill interpelou. Logo atrás dele,
surgiram Sth Nnie e Sw Fitt.
-
Como havíamos combinado, e mantendo minha palavra. Vim avisá-los que o
julgamento ocorrerá em 14 arrs, que na contagem terrana corresponderá, mais ou
menos, a quatro meses e meio. Conseguirão chegar aqui antes disso?
-
Partiremos agora. Caso seja, usaremos uma Fenda Hipertemporal para chegarmos
antes. Agradeço por nos chamarem para acompanharmos sua comitiva, Ubukhosi. – E
encerrou a comunicação:
-
Bem, é isso! – Concluiu Li Kkan. – Vamos espera-los chegar. Ademais, aproveitem
seu tempo livre para se organizarem. Pum Riss me disse que tiveste interesse em
nosso indlu yasezulwini, Marcelle Menken?
-
Sim, Ubukhosi Li Kkan. – Respondeu Marcelle. – É interessantíssimo, pois abre
uma possibilidade de termos acesso a locais da galáxia ou mesmo do universo que
demoraríamos muito a alcançar. Gostaria de passar mais tempo lá, até nossa
saída, se me permitir.
-
Lógico. – Disse Li Kkan. – Pum Riss, dê acesso total a Marcelle Menken para que
possas “viajar” para onde desejares.
-
Com certeza, Ubukhosi. – Respondeu Pum Riss, com um sorriso no rosto. – Acompanhe-me,
Marcelle Menken. – Enquanto caminhavam para o indlu yasezulwini, Pum Riss
comentou algo com Marcelle. – Vocês terranos são extremamente interessantes.
Quando Corr Sairy estava aqui conosco, se recuperando, ele não saía da indlu
yezincwadi de Phællans, local que estiveste anteriormente. Mesmo com todo o
acesso ao Anima Mundi, que a esposa dele desenvolvera, ele preferia a indlu yezincwadi. Vocês não é indodakazi[10]
dele? – Marcelle não compreendeu, então Pum Riss tentou explicar. – Tens uma
ligação próxima a ele. – Então Marcelle sorriu de volta com aquele comentário,
mas logo perguntou:
-
O que aconteceu com Corr Sairy? Ele não dá detalhes a respeito da cicatriz no
rosto e do tapa-olho. – Pum Riss olhou para Marcelle com certo desconcertamento:
-
Infelizmente não me permito falar, pois não é minha história. Nós geralmente
não contamos às histórias dos outros, deixamos para que eles as contem. Se Corr
Sairy ainda não lhe contou, é porque ainda não vira o momento adequado para tal.
-
Mas por que ela não está no Anima Mundi? – Questionou Marcelle, que sentiu sua
curiosidade atiçada. Pum Riss voltou a sorrir, de forma divertida:
-
Porque é uma história como a sua ou a minha, ou seja, é algo comum. Se
procurarmos sobre Aryannin, encontraremos a história dela, pois ela é uma Megami,
mas se procurarmos sobre o amigo de vocês, Kotharyn, não teremos nada, pois
mesmo que ele faça parte da nobreza krarrashin, a história deles terminou sendo
interrompida quando o Migoto Akytiorr lhes tirou a liberdade. Todos os
registros no Anima Mundi são alimentados pelos planetas-membros da Confederação
Galaxial. Talvez você consiga identificar o nome de Corr Sairy na Guerra de
Crisyen ou na Crise de KellDesh e, agora como assassino do Maghnussy (que
espero conseguirmos mudar isso), mas só.
-
Ele nem menciona o nome dele da Terra, para saber mais sobre ele. – Falou
Marcelle com certa aflição. – Parece que ele desapareceu.
-
Ele fez isso! – Pontuou Pum Riss. – Corr Sairy conhece bem os algoritmos mestres,
então ele conseguiu “se apagar” do Anima Mundi. Se procurar sobre o chip
neural, encontrará que um engenheiro de nanotecnologia o desenvolveu, mas sem
referência ao seu nome. – Marcelle decidiu fazer o teste:
“Os
chips neurais começaram a ser desenvolvidos durante a Iniciativa Terra do
Amanhã, no ano terrano de 3555 (K-Rarr 844.99). Um engenheiro de nanotecnologia
o criou para suporte ao Anima Mundi, criado pela analista de sistemas, Dra.
Josiane Curtis, e pode ser ligado ao córtex cerebral sem necessidade de
cirurgia, com uma micro-incisão no lóbulo temporal esquerdo, sem causar danos
aos tecidos cerebrais ou qualquer efeito colateral. O primeiro chip neural
produzido tinha somente 10 terabytes de capacidade e foi usado durante a viagem
experimental da nave Prometheus IV. A capacidade de armazenamento foi ampliada
para 100 geobytes, mas nunca ultrapassa o limite de 2 petabytes. O chip neural
tem um sistema omniversal de idiomas, podendo identificar e traduzir um idioma
em 0,215 nanosegundos, além de permitir uma comunicação neural, sem necessidade
de artefatos sonoros ou auriculares”.
-
Você procurou, não foi? – Questionou Pum Riss ao ver o olhar distraído de
Marcelle. – Percebeu o que falei?
-
Sim. É estranho, pois fala somente que “um engenheiro de nanotecnologia o criou
para suporte ao Anima Mundi, criado pela analista de sistemas, Dra. Josiane
Curtis”, mas o nome dele nem é mencionado.
-
Lyn Xus questionou Corr Sairy, k-rarrs atrás, o motivo dele ter feito isso, e
ele disse que não importava o passado dele, mas sim o que ele realizaria dali
para frente.
-
Bem, importa para mim, e eu descobrirei isso, com certeza.
-
Boa sorte. – Elas chegaram ao observatório. – Aqui estamos. Uthisha Pum Riss
dando acesso total as informações à Marcelle Menken. Escanear! – Uma luz surgiu
e passou por toda a extensão do corpo de Marcelle. – Pronto, o universo está a
tua disposição! Preciso ir ao Sikhungo Semfundvo e deixar tudo acertado, antes
de nossa viagem. Boa pesquisa! – E se retirou, deixando Marcelle sozinha com
seus questionamentos sobre seu padrinho.
Corr
Sairy ainda permanecia em sua cela, quando Sharan chega para vê-lo e adentra em
seu cubículo:
-
Peraí, isso está aberto e eu posso entrar e sair? – Questionou Corr Sairy
espantado porque a jovem de traje alvo entrou tão facilmente:
-
Sim, se você tivesse o mesmo padrão energético que um Thrittanis. – Sharan
respondeu de forma sarcástica. – Bem, precisamos resolver algumas coisas, pois
o Confederado Victor Cambasi levantou a suspeita que todo e qualquer arquivo
que você tenha pode ser uma falsificação. Preciso saber o que você tem e agora.
-
Está bem. Vá até S.E. que ele permitirá que tenha acesso a todos os arquivos,
pois já deve estar ciente que você é minha defensora.
-
Farei isso. Uma pergunta, você recebeu alguma visita além da minha e do
Confederado-mor Stahirr?
-
Se está me questionando se outro Confederado, como Victor Cambasi, da Terra, me
fez alguma visita neste meio tempo? Bem, não gosto de mentiras... então, sim!
-
Ele fez isso? Bom saber, pois isso fere...
-
O Artigo 64 da Confederação Galaxial? Sim, eu também sei disso, mas preferi não
contar a ele. Achei que não se importaria.
-
Você conhece a Lei da Confederação Galaxial?
-
Algumas. Guardei elas para acessar quando quisesse em meu chip neural. Sabia
que isso era possível? – Sharan jogou a cabeça de lado e olhou com curiosidade
para Corr Sairy e o questionou:
-
Como você sabe disso?
-
Porque eu o criei. Lógico que retirei meu nome de lá, mas eu que criei o chip
neural. Sei que Victor Cambasi termina levando a fama, mas nem ligo mais. Isso
foi no século XXXVI da Terra e hoje ela deve estar no século LV. O que foi, não
importa mais. – Sharan ainda estava intrigada:
-
Você desenvolveu um dispositivo que toda a Confederação Galaxial usa, e para
você não é nada demais?
-
Não achei que vocês Thrittanis se importassem com isso?
-
Não, mas me impressiona um ex-terrano não ligar para isso. Sei que temos pouco
conhecimento dos terranos, pois nosso único contato na Confederação Galaxial é
com o Confederado Victor Cambasi e, mesmo com todas as reuniões ordinárias,
extraordinárias, nunca temos outros que vêm aqui. E Cambasi parece tão pomposo,
senhor de si... nos faz crer que todos os terranos são assim.
-
Bem, começamos que não sou mais terrano. – Sharan deu um sorriso sob a máscara.
– Tá, eu nasci na Terra, mas mesmo tendo vivido lá durante 45 anos nela, estou
tanto tempo longe que acredito pertencer mais ao espaço do que àquele planeta.
Sem contar que os crisyenos me “adotaram”. Cambasi é um exemplo bem enfadonho
dos terranos. Deveria visitar mais a Terra, Chefdiplomat Sharan, ou perguntar
ao Confederado-mor Stahirr como é viver lá.
-
Antes preciso resolver este problema do Confederado Victor Cambasi. Ele não
pode vir aqui e fazer qualquer ameaça ou insinuação de ameaça, - Sharan olhou
para Corr Sairy – mesmo que você não se importe. Falarei com o Confederado-mor Stahirr
quanto a isso e depois irei à sua nave...
-
S.E. Não o chame de nave, ele não gosta muito.
-
Está bem. S.E. Deixe-me ir resolver isso. – E Sharan saiu. Assim que ela se
foi, Corr Sairy contactou S.E:
-
“A respeite, S.E., e forneça tudo o que ela precisar. Cambasi quer desacreditar
tudo o que temos, então ele pagará por tudo o que nos causou”.
-
“Você quer que forneça tudo? Até mesmo o ataque?”
-
“Sim. Pode fornecer isso, também. Tanto a projeção quanto a transmissão da
Caixa Preta”.
-
“Tá certo. E quanto a comunicação com Aryannin?”
-
“Providencie isso também. Não quero aquele miserável do Migoto Akonyionn
levando a melhor nisso”. – E a comunicação foi encerrada. Momentos depois, o
Confederado-mor convocava Victor Cambasi, novamente, a sua sala. Ao chegar lá,
Cambasi se depara não somente com o Confederado-mor e seu suplente sentados
atrás da mesa, mas com Sharan, em pé, ao lado dela:
-
Entre Confederado Victor Cambasi. – Disse Stahirr e, após Cambasi se sentar,
continuou. – Aparentemente a prisão do criminoso Corr Sairy o tornou um
constante visitante de nossa sala, e agora por uma denúncia muito séria. A
nossa Chefdiplomat, Sharan de Thrittan, disse que você desceu ao andar das
celas para dialogar com o prisioneiro.
-
E quem contou isso, Confederado-mor? O Corsário? – Questionou Cambasi de forma
desdenhosa.
-
Na verdade, - disse Sharan – mesmo que o zellsektor[11]
não tenha monitoramento, por não vermos necessidade de tal, os elevadores
possuem uma cadeia de acesso que nos é informado aonde ele vai e quem o
acessou. Além de mim, que preciso visitar ao acusado, as outras pessoas que o
visitaram foram o Confederado Antares, que o levou até a cela, o
Confederado-mor Stahirr, que foi instrui-lo a respeito da sua prisão e escolha
de defensoria, e o Confederado Victor Cambasi, no caso você. O que fazia lá? –
Cambasi sentiu-se acuado:
-
Confederado-mor Stahirr, permitirá que ela me trate assim?
-
Confederado Victor Cambasi, como bem sabe Sharan não é somente a diplomata de Thrittan,
mas a Chefdiplomat. – Respondeu Stahirr, de forma ponderada. – Cargo este que
já pertenceu a mim antes dela, e sei muito bem que ela tem todo o direito deste
interrogatório, já que a Confederação Galaxial está sob cuidados dela, de certa
forma, pois lidera os representantes de Thrittan na Confederação Galaxial. E,
como bem sabe, o Artigo 2 da Lei da Confederação Galaxial é respeitar as
normas, leis e regras dos planetas-membros e da Confederação Galaxial.
-
Na Lei da Confederação Galaxial existe, também, Artigo 64 que fala sobre o
encarceramento de prisioneiros pré-julgamento, e o seu Inciso 3 diz que o prisioneiro
somente pode receber visitas do seu acusador, defensor ou do cargo mais alto da
Confederação, no caso, o Confederado-mor. O que não seria o seu caso. – Disse
Goliath Hitarr. Cambasi suava frio e sentiu suas pernas fraquejarem. Se
estivesse em pé, teria caído, mas seu cérebro agia rápido, não era à toa que
tinha sido escolhido como Confederado da Terra, pois conseguiria resolver os
problemas com agilidade:
-
Eu fui avisá-lo que ele não escapará tão facilmente, principalmente destilando
suas mentiras. – Sharan ia falar algo, mas viu a mão do Confederado-mor Stahirr
levantar:
-
Isso é totalmente inapropriado, Confederado Victor Cambasi. Por causa dessa
atitude, ficará confinado ao seu ambiente até o momento do julgamento, dentro
de 13 Arrs. – Cambasi ia se pronunciar, quando a mão de Stahirr se ergueu
novamente. – Se houver protestos quanto a isso, ficará impossibilitado de
participar do julgamento de Corr Sairy. É o que deseja?
-
Logicamente que não, Confederado-mor. – Disse Cambasi como tivesse sido
derrotado.
-
Encaminhe-se então para seu ambiente. Ficará sobre guarda até o dia do
julgamento. – Após Stahirr encerrar, Cambasi saiu da sala e, logo depois Sharan
saiu, também, sem muitas declarações, se dirigiu ao hangar onde estava S.E. Ao
localizá-lo, com as ranhuras douradas em seu casco escuro reluzente, ela se
aproximou e a comporta abriu, de forma convidativa. Mesmo achando estranho, ela
entrou:
-
Corr Sairy não disse que você seria tão receptivo. – Ela falou, já no interior
da nave.
-
Ele não é tão esperto quanto ele pensa. – Ela ouviu a voz adolescente e
metalizada de S.E.
-
Você é S.E.?
-
Águia de Aço IV, ao seu prazer. Mas pode me chamar de S.E., sem problemas.
-
Por que me aceitou no seu interior?
-
Porque está em todos os canais da Confederação Galaxial que você será a
defensora de Corr Sairy. Uma leve pesquisa de quem você era e... Aqui está você!
-
Vou precisar de todos os arquivos de missões de Corr Sairy. Você os tem?
-
Lógico. Do período antes do ataque e depois do ataque...
-
Ataque? O que o deixou com aquele objeto sobre o olho?
-
O tapa-olho? Sim. Este foi o pior dia para nós. Ele usa o tapa-olho para não
esquecer e eu guardo o arquivo...
-
Você tem o arquivo disso, também?
-
Lógico. Tenho todos os arquivos de mensagens da Caixa Preta que eu capturei na
época. Eu não era nem metade do que sou hoje, mas mesmo assim estão comigo.
-
Eu poderia usa-los, também. Se me permitir. – S.E. fez uma pausa dramática,
como se pensasse no caso:
-
Está bem. Anexarei aos outros arquivos. – Um tempo depois, ele ejeta um pequeno
chip. – Aí está tudo. Agora preciso entrar em contato com Marcelle, Kotharyn e
Aryannin, para saber se viram à Thrittan...
-
Eu preciso falar com Aryannin, você já deve saber.
-
Lógico, Corr Sairy foi acusado de seu sequestro. Mas isso não ocorreu, preciso
saber se ela virá para testemunhar a favor de Corr Sairy.
-
Eu poderia falar com ela. É essencial para o caso e me poupará um tempo
precioso.
-
Será um prazer. – E S.E. iniciou uma transmissão para Phællans, pedindo para
falar com Aryannin e, rapidamente, a transmissão foi transferida para onde ela
estava. – Transmitindo.
-
S.E... quem é você? – Disse a projeção de Aryannin.
-
Megami Aryannin, eu sou a defensora de Corr Sairy, Chefdiplomat Sharan de Thrittan.
Posso lhe falar?
-
Ele não é culpado do que lhe acusam! – Aryannin já foi dizendo. – Ele não me
sequestrou.
-
Entendo. Então você testemunharia isso, caso seja necessário?
-
Logicamente. Tudo o que for preciso para ajudar Corr Sairy. O Ubukhosi Li Kkan
de Phællans estará indo com uma comitiva na qual farei parte, pois pretendo
ajudar na liberação de Corr Sairy.
-
Sou muito agradecida por isso, Megami Aryannin. – E a ligação foi encerrada:
-
Bem, foi bem rápida essa. – Disse S.E. – Depois ligo novamente para saber se
Kotharyn e Marcelle virão. – Um sorriso brotou no rosto de Sharan. – Espero que
tudo que lhe forneci seja de grande ajuda.
-
Será. Muito obrigada por tudo, S.E. Percebi que ficou com umas ranhuras em seu
casco. Ficará bem?
-
Ah, cicatrizes de guerra. Obrigado pela preocupação. – E Sharan saiu do
interior de S.E., mas ao invés de ir para sua sala, ver o que tinha em mãos,
desceu, novamente, às celas e lá estava Corr Sairy, sentado na cama, olhando o
nada:
-
Sabe, quase que conseguiu. – Disse Sharan, entrando na cela e vendo Corr Sairy
com um semblante de incompreensão. – S.E. é muito bom. Ele até me convenceu a
pedir pelo arquivo do ataque a vocês, mas Aryannin, por mais que seja uma Megami,
demonstrou muita ansiedade em falar.
-
E você acha que ela está mentindo? Você acha que os arquivos são falsos?
-
Não. Eu acredito que os arquivos são verdadeiros, bem como ela disse a verdade,
mas eu me pergunto como você se comunicou com eles. Lembre-se você falou que
não gosta de mentiras... e que eu identificaria caso mentisse.
-
Sim, eu sei disso. Mas eu não falei com Aryannin, em nenhum momento. As
tempestades energéticas de Thrittan não permitiriam qualquer comunicação por
chip neural...
-
Mas se comunicou com S.E., não foi? Sabia que, por causa disso, eu poderia
largar seu caso. É totalmente proibido qualquer comunicação de um prisioneiro.
-
Não é exatamente isso, aparentemente meu chip neural deveria ter sido bloqueado
e não ocorreu.
-
Como assim?
-
Como lhe disse, eu criei o chip neural, então conhecer o mainframe dele é
fácil. Nem precisei tirar de onde estava, ampliei sua capacidade e alterei a
configuração de contato, podendo manter-me ligado quando e onde desejar (com
exceção de fora daqui, devido ao campo energético). Não estou cometendo crime
nenhum, pois não há nada nas Leis da Confederação ou da Terra que fale sobre
mudanças na configuração do chip neural. E, além do que, S.E. é um amigo...
-
Um cúmplice, você quer dizer. Ele estava com você quando, supostamente, cometeu
os crimes que fora acusado.
-
Não exatamente. Só comecei a desenvolver S.E. com o tempo. A primeira versão
era de uma Inteligência Artificial nível 2, sem muita autonomia. Ela durou até
a versão 3, quando fomos atacados e quase mortos. Em Phællans que comecei a
desenvolver a versão que você conheceu, uma Inteligência Artificial nível 5,
totalmente independente. S.E. é totalmente cognitivo, nem precisaria de mim,
mas trabalhamos bem juntos e ele é agradecido por eu tê-lo criado.
-
Então seu chip neural não está somente usando o tradutor omniversal?
-
Não. Eu mantive o número de série, pois ele está registrado no banco de dados,
mas as alterações configurativas me permitem mais, por exemplo, se eu desejasse
ficaria invisível para a Confederação Galaxial, eu desapareceria, mas quero um
julgamento justo e ser inocentado do que estou sendo acusado. – Sharan sentiu
que, em nenhum momento, Corr Sairy lhe mentiu. Então somente falou:
-
Nada mais de comunicações com S.E., por favor. Não reportarei a Confederação
Galaxial, se prometer. Mas se não, desisto agora do seu caso. – Corr Sairy
tentou procurar algo por trás daquela máscara alva, mas ela era pior do que
Antares e, muito contragosto ele disse:
-
Está bem. Não me comunicarei com S.E. até o encerramento disso tudo. – Sharan
parecia impassível, mas disse:
-
Então estamos combinados. Irei agora examinar tudo que recebi de S.E. Preciso
passar pelo teste de confiabilidade, senão a Confederação Galaxial não
aceitará. Voltarei em breve. – E Sharan saiu da cela. A partir daquele momento,
Corr Sairy ficou mais sozinho do que já estava.
[1] Injiniyela
omkhulu = Engenheiro-mor
[2] Uthisha =
professora
[3] Isazi-mlando =
historiadora
[4] Umtapo wolwazi =
bibliotecária
[5] Inhloko yesiko =
Chefe da Cultura
[6] Isazi
sezomthetho = Perito legal
[7] Induna yonogada
= Chefe de segurança
[8] Umholi omkhulu =
Grande líder
[9] Umholi = líder
[10] Indodakazi =
filha
[11] Zellsektor =
Setor de celas
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