Bem distante dali um transportador pousava no espaço-porto da Mitir Póli[1] de Dharkyens e do seu interior saía K’thryn Swiss e um darkyani com uma coleira e algemas que se conectavam com um fino cabo, tendo duas dharkyensis atrás dele. A Mitir K’roll Swiss esperava diante na parte de trás do transportador, por onde eles desciam. K’thryn Swiss correu em direção de sua mãe:
-
Peça para nossas adelfés soltarem ele, Ypérochi Mitir[2].
– Requiriu K’thryn, quase suplicando:
-
E por que eu faria algo assim, minha plátto? Ele é nosso inimigo. – Disse
K’roll apontado para o darkyani acorrentado que, caso se mexesse, receberia uma
descarga energética que correria pelos cabos. – No mínimo participou do ataque
a ti. Ele não merece nossa benevolência.
-
Ypérochi Mitir, minha mitéra[3],
ele fazia parte do grupo que me atacou, mas não participou do ataque. Quando
minha nave foi atingida, percebendo que somente ele não me atacava, direcionei toda
a força de minha nave em sua direção para derrubá-lo comigo...
-
Conversaremos sobre isso depois de trocar esses trajes em farrapos e se assear.
Como conseguiu dar sinalização às nossas adelfés?
-
Ele, Ortsac Searamiug, conseguiu consertar uma das naves e saímos de onde
estávamos. Foi ele que acionou o pedido de ajuda em nossa frequência, que
forneci a ele...
-
Tu forneceste nossa frequência para um darkyani? E se ele passou isso para os
iguais dele?
-
Tu não entendes, minha mitéra...
-
Não é o momento para entender nada. Vá, se asseie e me encontre para comermos
algo.
-
Não antes de libertá-lo. Ele salvou minha vida. – K’roll olhava para o darkyani
com desprezo e rancor. Não entendia os motivos de K’thryn pedir a liberdade de
um inimigo:
-
Depois de sei asseio e comermos algo, conversaremos e decidirei o que fazer,
por enquanto devemos trata-lo como ele é, um inimigo. Vá. – E apontou para K’thryn
e esta saiu. K’roll foi na direção do ser com forma reptiliana e acinzentado. –
O que fizeste a minha plátto, ser? – Ortsac também estava bem sujo e machucado,
mas falou:
-
Nada que ela não fizesse por si mesma, Mitir K’roll Swiss. Sei que precisa agir
comigo de forma hostil, mas acredite, não sou vosso inimigo.
-
Independente de ser ou não, será tratado como tal. Leve-o ao calabouço, e peça
para uma de nossas therapeftís[4]
cuidar dos ferimentos dele (somos inimigos, mas sabemos tratar nossos
prisioneiros). Depois verei o que faço contigo. – Uma das guardas que
acompanhavam Ortsac bateu em seu ombro e ele gemeu. Ele seguiu a outra que se
posicionava a sua frente.
Depois
de se assear, K’thryn Swiss se juntou a sua mitéra em uma mesa farta de
alimentos:
-
Vá, sirva-se, deve estar com fome. – Disse K’roll, mas tudo que K’thryn fez foi
sentar-se ao seu lado da mesa:
-
Minha mitéra, preciso lhe falar. Eu não estou com fome, pois Ortsac me
alimentou. Ele me deu comida, cuidou dos meus ferimentos e reconstruiu nossa
nave com partes da sua. Ele é um excelente mecânico.
-
Um ocinâcem? Desde quando os darkyanis colocam socinâcem como sosocileb? –
Perguntou K’roll.
-
É disso que lhe falo. Ortsac não é um osocileb darkyani...
-
E por que você o trata pelo primeiro nome? O que aconteceu contigo, minha
plátto?
-
Se me permitir, lhe falarei tudo. – K’roll curvou a cabeça em afirmação e K’thryn
iniciou seu relato. – Enquanto vasculhava o sistema de meteoros, verificando
como estava a produção de kuracium, um grupo de seis lailebs darkyanis me
cercaram, nos limites de Volstash. Típico cerco dele. Cinco delas começaram a
disparar contra mim e, quando percebi que meu sistema de proteção não
suportaria, joguei minha nave naquela que achei a mais fraca, ou seja, na que
não me atacou. Caímos em Volstash e, devido as naves terem ficado bem
avariadas, os darkyanis deveriam achar que estávamos mortos.
“Quando
despertei, tinha um enorme ferimento no ventre, mas tinha sido costurado e
estava protegido contra germes, bem como todos os meus demais ferimentos. Vi um
brilho distante no interior da nave e quando olhei era Ortsac, operando um
soldador plásmico. Naquele instante agi com hostilidade, como você fizera,
minha mitéra, e terminei abrindo o corte no ventre. Ele então me dopou com um
anestesiante e eu cai no sono, novamente. Acordei e estava atada à cama e ele
me explicou que aquilo era para eu não abrir a costura, novamente. Ele explicou
que nossas naves haviam caído e, como o suporte de vida da laileb dele ainda
funcionava, ele me colocou um traje de suporte e me levou para a sua. Lógico
que achei aquilo um embuste e tentei me soltar, mas ele é bom de amarras, devo
contar.
“Ele
não ficava muito comigo na laileb dele, indo e voltando, constantemente. O
questionei o que fazia, quando me dava líquidos e me alimentava com barras de
comida, e ele disse que estava consertando minha nave, pois ela estava em
melhores condições para partir dali. Continuei não confiando nele, mas percebia
que ele quase não comia e bebia pouquíssimo líquido, deixando para mim. Me
recuperei rápido, mas ele não me soltou (acredito que temia que eu o atacasse,
e eu faria se ele me soltasse). Também reparei que seu rastejar diminuía com o
tempo, como se ele sentisse uma intensa dor, mas não parava.
“Passado
um tempo, ele me soltou e disse que minha nave estava pronta para eu ir.
Coloquei meu traje e saí correndo de lá, mas reparei que ele não me seguia e
voltei para saber o motivo. Ele me disse que sabia quem eu era e que eu era
mais importante do que ele e que deveria sair dali o mais rápido possível e
voltar para cá. Mas minha adelfí aderfí me ensinara que mesmo nosso pior
inimigo merece um momento de compaixão. Ele fizera tudo por mim, cuidara dos
meus ferimentos, meu deu comida e líquidos e consertara minha nave, enquanto eu
só pensava em mata-lo e sair dali.
“Quando
voltei a laileb dele, ele estava fraco, debilitado. Coloquei seu braço sobre
meu ombro e o levei a minha nave. Apesar dos remendos, ela parecia bem e
estável. Coloquei-o em nosso escâner para ver o que havia acontecido com ele e
reparei um rompimento de vasos na região de sua cintura. O imobilizei e operei.
Depois de um tempo dele recuperado, saímos de Volstash. Enquanto eu pilotava,
ele ficou incumbido do sistema de comunicação. Passei a ele nossos códigos e
aqui estamos”.
-
Você está tryferós[5]
por ele, não está? – Questionou K’roll ao final do relato de K’thryn.
-
Não vou lhe esconder, minha mitéra, estou sim. Ele poderia ter me deixado para
morrer, mas cuidou de mim. Ele não é como os outros darkyanis...
-
Plátto minha, não se engane com esses darkyanis. São todos iguais. Ambiciosos,
belicosos, oportunistas. O que ele fez foi ludibria-la, pois sabia que tu o
trarias até nós.
-
E com que intenção ele faria isso, minha mitéra? Viste o darkyani. Ele não
porta armas, ele estava tão maltrapilho quanto eu. Ele... – Antes de K’thryn
continuar, uma mulher com trajes médicos entrou no salão de janta:
-
Perdoe-me interrompe-las, Ypérochi Mitir. – Disse a Iatrévo[6].
-
Algo a dizer do nosso prisioneiro, T’chya Kbonn? –
Questionou K’roll.
-
Não, Ypérochi Mitir. Ele sofreu um rompimento de vasos na região da cintura,
mas minha melhor mathitís[7]
– T’chya disse, olhando para K’thryn – fez uma sutura perfeita.
-
Encontraste algo mais? Algum rastreador ou dispositivo hostil que ele carregasse
no interior do corpo?
-
Não, nada, minha Mitir, ele nem parece um laileb de fato.
-
Por que diz isso, T’chya Kbonn?
-
Como bem sabes, Ypérochi Mitir, já precisamos operar vários darkyanis durante
períodos mais nefastos, e sempre eles tinham sinais de outras cicatrizes, além
do que suas mãos eram suaves, pois o sistema de navegação darkyani não possui
manetes ou volantes...
-
Prossiga, T’chya Kbonn. – Disse K’roll, um pouco impaciente.
-
Perdoa-me, minha Mitir. Bem, como ia dizendo, as mãos deste darkyani são
calejadas, como se fosse ocinâcem. Mas que ocinâcem em Darkyan e torna laileb?
-
Estou extremamente agradecida, T’chya Kbonn. Diga as nossas adelfés para
mantê-lo em cárcere.
-
Mitéra? – Questionou de forma repreensiva K’thryn e recebeu um olhar mais
repreensivo ainda. Quando a médica saiu, K’roll voltou à sua plátto:
-
Sabes que não deve me chamar assim perante nossas adelfés. O que pensas que
faz? Perdeste o respeito por sua Mitir?
-
Me perdoe, Ypérochi Mitir. – Respondeu K’thryn, curvando a cabeça. Não se
repetirá.
-
Assim espero. Agora retire-se para vosso aposento. Depois continuaremos essa
conversa. Ah, Corr Sairy fora condenado por cinco k-rarrs em exílio. – K’thryn
não conseguiu esconder um pouco de satisfação, pois ela culpava o crisyeno pelo
que acontecera com a adelfí. Reparando nisso, K’roll continuou. – Guardas
remorsos por Corr Sairy com sua adelfí, mas agora vivencias o que ela vivenciou
e, mesmo assim, se contenta com a condenação de um homem inocente?
-
Desculpa-me, minha mitéra, mas se ele é inocente, por que fora condenado?
-
Porque o mundo patriarcal crê em uma justiça baseada no ardil. Desconsideraram
as palavras da Erregina Tyth Annis, pois desejavam colocá-lo preso. Se achas
louvável isso, pensais no que sente pelo darkyanis. Não julgai se não desejas
ser julgada, minha plátto. Agora retire-se para seus aposentos.
No
caminho para seus aposentos, K’thryn Swiss não entendeu a comparação. Sim, ele
sentia uma afeição por Ortsac Searamiug, mas não se entregou a ele como a adelfí
fizera e ela testemunhara, sem intenção de fazê-lo. Ela tinha afeição por ele,
pois Ortsac a salvara e cuidara dela. Mas o que Corr Sairy fez por sua adelfí?
Somente bagunçou sua cabeça, fazendo-a acreditar no amor entre espécies. Depois
disso, K’rynn se entregara ao amor por Stahokk e terminou presa e condenada por
apoiá-lo naqueles planos contra a Confederação Galaxial. Hoje ela é chamada de
renegada por causa disso e por isso K’thryn culpava Corr Sairy.
Algum
tempo depois, Ortsac recebia uma visita em seu cárcere da Mitir K’roll Swiss:
-
Mitir K’roll Swiss! – Disse Ortsac, curvando a cabeça na presença dela, o que
espantou K’roll:
-
Por que curvas a cabeça diante de minha presença?
-
Meu pai ensinou a mim e meu irmão respeito por todos os governantes. Ele diz
que o respeito é algo que devemos sempre e, quando na presença de qualquer
governante, o correto é curvar à cabeça.
-
Qual a função de vosso pai, darkyani.
-
Me chamo Ortsac Searamiug, Mitir (sei que não perguntou, mas prefiro dizer). Onretap
Onerb Ohlavrac é um abircse e anretam Atram Solpmac uma asocileb.
-
E você, Ortsac Searamiug?
-
Eu era um ocinâcem, Mitir, mas precisei me tornar um osocileb para nos honrar.
– K’roll ficou intrigada com aquilo, pois nunca vira algo semelhante:
-
Me fale mais.
-
Bem, não tenho motivos para esconder. Onretarf Ledif Solrac puxou a anretam Atram
Solpmac e se tornou um belicoso. Mas ele não concordava com a forma de agir e
pensar de muitos belicosos. Acho que tinha um pouco de onretap Onerb Ohlavrac
nele, também. Como fui o segundo, nunca me tornaria osocileb, mas também não
desejava ser. Prefiro ver um laileb no seu âmago do que operá-los.
“Durante
uma ação que onretarf Ledif Solrac participou, uma emboscada contra uma nave
terrana, ele não atacou, como todos fizeram. Dissera ele que foi degradante
aquilo. Que era humilhante os belicosos darkyanis juntarem vinte lailebs contra
uma única nave, somente para agradar seu Redíl. Anretam Atram Solpmac sempre
lhe dizia para ele guardar suas opiniões para si mesmo. Mas, não sabemos como,
o Redíl soube do que onretarf Ledif Solrac falara sobre ele e exigiu uma
retratação pelo Arreug Eugnas. O problema é que
ninguém nunca venceu o Redíl em um Arreug Eugnas, pois ele é ardiloso e vencera
com golpes vis. Mas se onretarf Ledif Solrac não aceitasse, desonraria a
família.
“onretarf
Ledif Solrac lutou bravamente contra o Redíl, mas como eu disse, Redíl era
ardiloso e, com seu oãrref, degolou onretarf Ledif Solrac. Mas a desonra veio
mesmo assim, pois Redíl divulgou que onretarf Ledif Solrac se acovardara e não
disparara contra a nave terrana. Então, para tomar a honra de volta, me
inscrevi para belicoso. anretam Atram Solpmac caçoou de mim e disse que eu
nunca conseguiria ser nem metade do onretarf Ledif Solrac havia sido, mas onretap
Onerb Ohlavrac me apoiou. Fiquei na média em todos os testes para ser belicoso,
mas sem entender os motivos, me enviaram na missão de atacar vossa plátto, que
derrubou minha laileb junto com a nave dela”.
-
Por que salvou minha plátto e cuidou dela? – Questionou K’roll, instigada com o
darkyani.
-
Eu sabia quem ela era, Mitir. Somente nos disseram para ataca-la por causa
disso. Fiquei temeroso em encontrar várias lailebs como ocorreu no caso de onretarf
Ledif Solrac, mas acho que intenção era somente derruba-la.
“Quando
percebi as avarias nos propulsores e estabilizadores de minha laileb, sabia que
não sairia dali. Sem contar que sentia uma dor lancinante por baixo do meu
cirdlab e não via visco saindo, então me esforcei para ajudá-la.
A
estrutura externa da nave dharkyensi estava quase intacta (definitivamente,
vocês fabricam melhores do que nós) e, quando entrei, vi vossa plátto ferida na
região das culotes. Um pedaço considerável de metal havia perfurado. Quando
tentei carrega-la, pela primeira vez, o instinto dela foi me atacar
(compreensível, sou o inimigo), mas o esforço foi grande e ela apagou. Olhei
para os sistemas de suporte de vida e haviam falhado. Então coloquei-a em um
traje de suporte e carreguei para a minha laileb, onde o suporte de vida ainda
funcionava. Costurei a ferida da melhor forma que pude. Era um corte limpo,
então não tinha muito para costurar, somente para parar de sangrar.
“Enquanto
eu retirava pedaços de minha laileb para consertar a nave de vossa plátto, ela
acordou e partiu para cima de mim, novamente, mas a ferida abriu e precisei
sedá-la. Amarrei-a na maca, costurei, novamente, e continuei meu serviço.
Marquei um tempo para poder alimentá-la e dar-lhe líquidos. No começo ficou
receosa (deveria crer que desejava envenena-la), mas depois a fome e a sede
apertaram e ela aceitou. Quando finalizei as obras na nave dela, consertando o
suporte de vida e o sistema de navegação, que estavam mais avariados, separei
meu sistema de comunicação e coloquei no cockpit (não sabia se o meu sistema
funcionaria com o de vocês, mas a nave, somente com ela, chegaria até Dharkyens).
Quando a libertei ela correu para a própria nave. Acho que a excitação tinha
passado e meu corpo padeceu, pois desmaiei. Me lembro de pequenos flashes, como
dela transpassando meu braço por seu ombro, me colocando sobre uma maca fria e
sendo sedado. Quando despertei, a dor havia sumido (sua plátto é muito boa) e
perguntei se ela não desejava ajuda para se comunicar com vocês. Ela relutou,
mas me passou os códigos e aqui estamos”.
–
Por que disse somente com ela?
-
Porque eu não havia feito reparos o suficiente para o suporte de vida manter
nós dois. Quando falei a ela sobre o sistema de comunicação, pensava nisso. Não
tive tempo de avisá-la sobre o suporte de vida para uma pessoa somente...
- Você falou sim. – Ortsac olhou sobre o ombro
da Mitir e esta virou para ver K’thryn Swiss. – Enquanto eu te carregava para
minha nave, você disse que o suporte de vida só serviria para um de nós. Mas,
depois de tudo que fizera por mim, não poderia deixa-lo lá. Ypérochi Mitir,
quando cheguei nos meus aposentos, entendi o que dissera e me perdoe por Corr
Sairy. Ele nos ajudara e nossa irmã vira a benevolência nele, por isso se
afeiçoou a ele. Mas não entendo os motivos dela ter sentido tryferós por
Stahokk. Ele queria destruir a Confederação Galaxial. – K’roll se voltou para a
sua plátto:
-
Minha plátto, nem tudo é o que parece ser. Existe muito mais sobre isso do que
pensas.
-
Por favor, minha mitéra, solte Ortsac. Ele me salvou.
-
Sim, ele te salvou e você o salvou. Agora estão tryferós um ao outro. Mas se eu
permitir ele solto, será uma afronta a nossas adelfés. Mesmo sendo Mitir e tu
minha plátto, elas não perdoaram.
-
Não quero que me solte, Mitir K’roll Swiss. Não quero lhe causar problemas, mas
somente lhe peço que não me envie para Darkyan. Eles sabem que eu não ataquei
vossa filha e Redíl me fará enfrenta-lo no Arreug Eugnas, senão pior. – Disse
Ortsac. K’roll não sabia o que fazer naquele momento, olhava para a sua plátto e
via em seus olhos turquesa a afeição que ela sentia pelo darkyani:
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